quarta-feira, julho 12, 2017

Pedido


Notoriamente, não tenho a receita que cura os problemas humanos. Tanta vacuidade, tantos distúrbios e disfunções, que chego a pensar em caso perdido, irremediável. Séculos de psicanálise, prateleiras de medicamentos, tarjas, receitas e rezas, solitárias ou coletivas, e as inquirições ainda molestam nosso merecido remanso. Conquanto, tenho convencido-me que há uma palavra, que em substância e compreensão, parece fantasiar o mundo. Como se, com ela, esquecêssemos da obrigação, das deficiências e emergências habituais. Como se vestíssemos a habilidade em viver melhor. Tenho pensado nessa palavra a cada fila de supermercado, a cada conversa e a cada demonstração apedeuta de incapacidade humana. Penso nessa palavra ao sentar ao piano, ao escutar o barulho de um bicho ou a relembrar uma foto antiga. A palavra é DELICADEZA. Substantivo feminino, muitas vezes associado à frágil constituição física, à debilidade e à fraqueza. Outras vezes, e assim melhor utilizada, pode significar sutileza, particularidade, minúcia ou algo que a mim encanta particularmente, chamado "detalhe imperceptível". E há mais delicadeza em saber que em tudo há o imperceptível? Que na verdade, o explícito é vulgar e o evidente é uma afronta à capacidade humana? 

A delicadeza é o sustentáculo da poesia, a garantia de que em algo há arte. A incerteza que faz da existência algo fabuloso, e não insípido, pálido e inexpressivo. O fascinante é perceber como a delicadeza é poderosa, que pode até na palidez perceber poesia. Pode achar encantamento no que é feio, no que é exagerado e no que é medonho. Pode inverter o deslumbrante e perceber na sarjeta um tanto de ouro. Pode até desfazer o valor do ouro e transformá-lo em resto, porcaria. Sem querer, tenho deixado que a delicadeza tome conta de meus dias. Tenho até tentado sonhar com ela. E num mundo de reivindicações, e de condenações ao espírito bruto, machista, grosseiro, tenho a delicadeza como ferrolho. Me agarro à ela como criança em sua mãe e pretendo deixá-la escoltar minha humanidade. 

Tenhamos então delicadeza ao acordar. Sejamos delicados ao assistir um filme, posto que no cinema, quase tudo que é mágico, passa por delicado filtro de poesia. Escutemos canções com delicadeza, e tenhamos com ela relação íntima ao descobrir uma música perdida no mundo da não existência. 

Gritemos com delicadeza, e até aborrecemo-nos com ela. Leiamos dessa maneira, longe da exigência dos significados e das frias noções. Sejamos delicados ao encontrar o outro, e saibamos perceber delicadeza no que vem de fora ao encontrar-nos. Olhemos paisagens com ela, lagoas com ela e animais com ela. Tenhamos entusiasmo e contundência, vigor e impetuosidade, visto que a delicadeza não impede nada, nem mesmo a fúria ou o rigor. Sejamos delicados ao sorrir e gargalhar, ao escrevermos um bilhete ou um livro. Que em nossos brindes ela esteja, e que em nossa comida se possa perceber o requinte da delicadeza em nosso paladar. Que do mais simples se possa perceber a delícia, e que do mais complexo se possa tentar distinguir as nuances, os entretons e as entrelinhas. Pois da vida sem entrelinhas, sem alegorias e sem prazeirosas percepções, prefiro a delicadeza da morte. Que saibamos também perceber delicadeza nela, e que a todo momento possamos nos lembrar dessa palavra: DELICADEZA.

sábado, junho 17, 2017

O "Pendurado"



Na escada que dava ao pátio, havia uma folha seca, pendurada na borda de um degrau. Grudada num pedaço de teia, que num delicado fio prendia-se na pedra clara do piso. O resto, ficava pendente, imperceptivelmente envolto em translúcida camada de seda. Minha avó chamou aquilo de "Pendurado". Foram muitas conferências e prosas. Inúmeras visitas ao bichinho, até alguma faxina mais atenta levar nosso companheiro para sempre. Perda que minha avó certamente disfarçara com alguma história sobre lagoas, sapos e grãos de areia. Entre uma colherada e outra de sopa amarela, ela inventava inusitadas narrativas. Jamais minha avó reciclava os contos, ou repetia-os distraída. Improvisava enredos e arranjava peripécias, compunha inteiras aventuras que atavam-me entusiasmado e bisbilhoteiro. Zelosa com seus desfechos, minha avó não os finalizava com tristeza e soturnidade. Ao neto curioso e bagunceiro, sobravam aprazíveis finais e fagueiras conclusões.




Levaram-na daqui, assim como ao Pendurado. Há o silêncio em nossas conversas, e nos finais de tarde, já não posso mais observá-la sorrindo. Restou-me um pouco de poesia que habilidosamente ela plantou em minha alma, e ainda sou capaz de enxergar Pendurados ao invés de folhas secas. E sei que entre as teias ainda habitam romances, aventuras e tramas. Posso sentir também, que nas escadas tem mais vida do que se possa cogitar. Pois com minha avó aprendi a musicar a existência, a escutar o sussurro das minhocas e a conversa das pedras com o chão. Ainda sou capaz de enxergar os vestidos do vento e sentir o gosto nectarino das vassouras.



Esses dias mesmo, tropecei num vaso de versos e pus-me a sangrar pelos olhos, um sangue com gosto de saudade.

No sofrimento



Não muito aprendi enquanto sorria. Reles foi o que cresci na brincadeira e no bacanal. Enquanto a bagunça nos embriaga e a distração nos arrebata, sobra-nos apenas uma ninharia de valiosos ensinamentos. Pudéramos distinguir quais deles são relevantes ou valiosos! Pois parece-me que a alegria cobriu-me, e impediu sabiamente que daqueles minutos eu arrancasse alguma epifania, algo revelador, ou até um bocado de equilíbrio. A perfeição, para Aristóteles, veio mesmo enquanto estive sozinho, desabitado. Enquanto chorava. Daí a grandeza da solidão, a imponência do silêncio. Como se a cada desesperança pudesse perceber a sutileza e a perfeição do sofrimento. O pêndulo que, de um lado, empurra-nos ao tédio, à melancolia e a própria vontade da morte, e que do outro, excita-nos a vontade, que é o desejo de possuir, igualmente frustrante por ser infinito e tolo. A órbita sem fim do desejar e suprir. Pois no sofrimento foi que percebi o caminho do pêndulo, e que trabalhoso mesmo é barrá-lo no meio, onde existe a serenidade da calma. O equilíbrio. E o pronuncio não como ornamento de uma zen pregação. O pronuncio como fiel cooperante na hora de pensar, de tratar e de proceder. O equilíbrio como parte fundamental da perspicácia e da lucidez. Habilidade que, por vezes, escapa-nos por entre instintos primitivos, anseios impacientes e quereres essenciais. O que pretendo assegurar é que na dor eu cresci. Foi no padecimento que a alma despiu-se das vaidades, das certezas e das resistências. Foi na aflição e no desespero que fez sentido a poesia. Foi no cansaço que nasceu a harmonia e suas decorrências. Na debilidade pude enxergar o condão do tempo, a mágica da placidez.


A embriaguez e a amizade, os sorrisos e a excitação, todos são preciosos e disso não se pode descrer. Afinal, de pouco discernimento e inteligência seria o homem que não buscasse a infinitude da alegria e da trégua. Mas não se pode hesitar a ansiedade. Não se pode evitar a inércia da desesperança como prelúdio de um crescimento. Penso mesmo que o deleite e o riso são cruciais revestimentos para que se possa atravessar o pranto com esguiez e precisão. Afinal de contas, sabemos que virá o choro, e que a vida tropeçará embriagada de alegria nas calçadas desniveladas da realidade.

segunda-feira, dezembro 21, 2015

O machismo também destrói os homens



Certa vez conheci uma moça. Omitindo os pormenores, fomos pra cama. Eu, mesmo sem uma gota de álcool no sangue, vencendo com honras o teste do bafômetro, brochei. Me enxerguei ali, nu, exposto ao ultrajante fato de não ter funcionado como homem. E desprovido de uma digna justificativa Shakespeariana, como a bebida. Foi uma semana pesada, lotada de desconfiança e visitas a doutores que fundamentavam a ocorrência às causas psicológicas. Muito trabalho, desassossego e ansiedade. Afinal, tratando-se de uma conseqüência aos processos naturais da existência, não havia eu cometido um crime. Havia sim falhado à expectativa maior daquele tio macho, que cobrava dos sobrinhos uma atitude máscula, varonil. Havia ferido o código dos amigos do bar, e com certeza, não hesitaria em guardar segredo.


Certa vez, ao ser ofendido em público no pátio da universidade, magoei novamente as exigências do meu tio. Preferi a retirada, renunciei à porrada, e escolhi ficar ali, quieto, lotado de humilhações e insultos. Voltei aos doutores e busquei entender o por que de estar à mingua minha condição masculina. Onde andaria a virilidade que me foi cobrada na família, pelos malandros do boteco, ou por minha própria mãe, esperando criar o "homem da casa"? Alguém que tomaria as decisões e pudesse não falhar novamente, como falhei com minha esposa ao não saber trocar o pneu do carro. Desço, olho a tragédia no meio da estrada e telefono a pedir ajuda. O homem que vem a mim, contempla-me com desdém, e uma espécie de prazer por avistar à frente, a evidência de que suas mãos sujas de graxa espezinhavam em minha ignorância quanto aos parafusos e chaves de rosca. Ah, se soubesse disso meu tio macho. Por certo desconfiaria ainda mais de minha masculinidade, e tentaria deglutir a certeza de tratar-se de um sobrinho maldito. Um homossexual. O que viria dali? Onde iria parar essa frescura? Conseguiria pagar as contas e sustentar a esposa? Chegaria tarde em casa espalhando os pés numa poltrona, à espera que a mulher me arrancasse as botas sujas de terra?


Perdi corridas, levantei menos peso que a moça ao lado, num daqueles aparelhos de fazer músculos. Não tive força para abrir o vidro de pepinos, e fui ridicularizado ao informar o grupo que gosto de mijar sentado. Quando usei um anel, haveria meu tio de confrontar-me, e num instante de resignação, preferi retirar o adorno a ser chamado de "maricas". Afinal, dos homens maricas a família esperava muito pouco.


Meu tio, hoje falecido, ainda assombra-me com alguma presença. Fiel assiduidade em garantir que todos os machos sejam machos. Meu tio, é tio de todos vocês.

sábado, julho 25, 2015

Desacostume



Já não me lembrava das técnicas. Não considerava o parágrafo. Fazia piadas com a coesão. Ela havia consumido o que ainda me restava de justo, de respeitável. Perdi minha fibra no meio dos seus cabelos. No rosto seco de inverno severo, fui à falência por entre seus dentes. Mordi em silêncio os lábios que não tinha e respirei um vestígio da vida, que escorria nos pêlos finos da nuca. Tracei a rota suicida das orelhas, que vinha desenhando o verde do chão, no caminho do queixo, e voltava como em desenho de criança, num risco ligeiro, fechando os olhos. Sorri junto do seu sorriso e abandonei a cena, como um acossado vira-latas.


Pus a ponta dos dedos na delicadeza no pescoço, e sucumbi ao tédio da farsa, como um encanto que se quebrara. Daí foi o sol. A violação do sol pelas paredes, refletindo alguma agonia, algum sopro medonho, como no medo. O escuro das coxas e sua relva. A nuvem que enfeitava a silhueta, dando-lhe imperfeição. Tirava a cera, trazia aquilo tudo para a humanidade e dava-lhe cheiro genuíno. Não de sabonetes e glicerinas, espumas e banho.


No fim, adormeci. Fechei o dia, fiz pouco caso. Não houve filme, consumo. Perdeu-se a arte possível e ganhou-se o tempo. E do tempo, pouco se pode escrever.


terça-feira, julho 07, 2015

Conselho que vos deixo?



Se me fosse dada a permissão ao conselho...

Diria para que grites. Fale o mais alto que puder.

Ao menos uma vez.

Seja indelicado, frio. Diga o que não deve ser dito.

Tome o salvo conduto do erro, ao qual padece a humanidade.
Fique sujo, inquieto. Aceite a dor do irreconhecível.
Escale uma montanha quando o corpo não permitir. E cante uma canção proibida, na mesa de família.
Entregue o jogo, pelo simples prazer da destruição.
Ranja os dentes, e diga sua palavra mais suja, no púlpito.
Erre mais de uma vez o mesmo erro, e delicie-se.
Faça o que não veio à cabeça, perca o controle.
Esmurre algo sólido. Sangre.






Exponha-se ao ridículo, desafine.

Fique sem palavras e mesmo assim não se cale.

Passe a vez. Desista. Force a barra.

Engorde. Aproveite a feiúra de um dia detestável.

Tenha um prazeroso desafeto, excomungue.

Maltrate-se. Trate-se. Finja de morto.

E quando pecar, agradeça.




Suba. Faça o contrário. Seja óbvio, torpe. Ria.

Disque um número qualquer e dê notícias.

Seja inconveniente, pesado.

E abandone. Largue o que é de vidro, recorte-se.

E morra. Ao menos uma vez.

sábado, junho 28, 2014

No Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa, por seu heterônimo Álvaro de Campos, há desmesurada ironia. Colocar-se crítico em relação aos próprios dilemas patológicos, julgar a verdade latente das doenças que assolam e dizimam a capacidade de sermos perficientes, plenos. Magistralmente exatos e possíveis. Pedras à espera do cinzel. Cinzéis à espera de pedras dignas, merecedoras da modificação inalterável.

Não temos tido a oportunidade de sermos fracos, ralos e medíocres. Algo residente em nossa própria alma, não nos têm permitido o medo, a incapacidade, e perversamente coage-nos a esquecer a possibilidade de ser infeliz. De estar infeliz. O homem merencório é o homem que perde. Doutrina-se de algum jeito tal axioma.

Perde-se a esposa ao fazer-se um homem comum. Malogra-se ao trabalho frente ao erro. O funcionário extraordinário, o marido que abisma, que encanta. Um filho presente, propício e independente. Resumidamente responsável. Notoriamente radiante. Uma nova característica do Übermensch nietzscheano. A ausência de libido, a labuta que esgota, um corpo lasso em busca de algo desinteressante, de um cálice de vinho, ou de um filme inculto, que faça o tempo correr.

Não. Desprovidos do direito ao desleixo, à negligência, movemo-nos ao objetivo do sexo aprimorado, duradouro e orgástico. Vestimo-nos adequadamente ao nosso emprego, condizentes ao nosso celular, e destilamos importância. Ou, ao menos, reputação. Os antidepressivos nos são incertos, nocivos. Devemos sorrir na entrevista de emprego, no supermercado e na reunião. Um homem infeliz é um homem incompetente, escasso e nada confiável. Não há vez ao homem comum. Não há sensualidade possível em ser honesto, previsivelmente humano. E como bradou Pessoa:

"Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"

terça-feira, junho 24, 2014

Basta

Nietzsche incumbiu à arte a crucial responsabilidade de não deixar com que a verdade nos consuma. Evitar que o ordinário nos execute pouco a pouco. Mesmo que boçais artistas insistam em evitar a subversão do monótono, do medíocre, dando lugar à simples exposição do rotineiro, do verídico, a arte sustenta-se ao esteio incólume do imaginário. Vive ainda na realidade dos paradoxos, na veracidade do impossível e na capacidade de ser minuciosa, mesmo quando corre em colossais planícies.

Até na fotografia do inegável, do que parece não dar brechas para a dúvida, para a análise, a arte pede caminhos obscuros, dissimulados. A arte necessita do tênue, mesmo quando esbarra conscientemente no robusto, ou na corpulência de uma expressão espessa, volumosa. Por entre os poros da revelação, há de haver o que fisgar o que compreender.

Basta de símbolos. Cansa-nos o perseguir intenso das metáforas. Elas são belas, e por que não haveriam de ser? Mas não são imperativas, tampouco obrigatórias. Cansam e importunam. Criam uma espécie de fanatismo pelo desígnio, pela representação. Como na história das cores em uma bandeira, demarcamos a conclusão através das adivinhações, dos enigmas obsoletos, pobres e maçantes. Porra! Chega dos símbolos.

quinta-feira, junho 12, 2014

Eu tenho asco do símbolo. O entrelaçamento de significados me enoja. Ainda temos no que esbarrar. Ainda sobrou arte a ser descoberta. Ejaculada.

quarta-feira, agosto 07, 2013

meu Aniversário



Hoje é meu aniversário. E o que fiz? O que teria planejado? Não que tal questionamento me seja comum ao término do ciclo em que não comemoro meu nascimento. Somente que chega-me ao colo a vontade de colorir o tempo, de reescrever o ocorrido, de forma sucinta e bela. Que a outros encene a fabulosa inutilidade de minha imaginação. Do que é certo, e do que é aposta. Do que volta e corrói, e do que desaparece incólume, distinto.


Eu tenho coisas. E abro mão com uma incrível ternura. Dos poucos momentos, aliás, em que sou realmente incrível. Incrivelmente porco. Um homem que lambe a calçada. Um coprofágico compulsivo. Um indivíduo sexualmente doentio, ou humanamente são. Um cão lotado de donos, que desrespeita sua comida, seus panos de sono.
Ao conhecer-me, dou-te impressões, possibilidades. Não trago antídotos mesquinhos. Não cago em seus pratos, em suas mãos. Não soco a pica molhada em suas bocas secas. Mostro-lhes violentamente a pica como é. Pica, e somente pica. Tomo água e vinho. Bebo venenos e como porcarias que me fazem bem, e mal. Escuto o que seus ouvidos não entendem, e gozo. Estremeço ao primeiro sinal de minha própria sanidade. Escrevo pandaréus em folhas limpas e ricas.



Sou noivo de nada, corno de tudo. Há os que carregam predileções por meu sono. Há também os que adoram-me acordado. Beijo minha própria boca, chupo meu próprio pau, e esporro violentamente na cara da menina que gostaria de ser.Hoje é meu aniversário. E mais o que? O que faço, então, se nasci há alguns anos? Digo-lhes que continuo chorando. Feliz, porcamente feliz. Insossamente realizado. Um homem definitivamente completo. Um metade.

segunda-feira, março 04, 2013


     Talvez possa algum dia adormecer no ônibus. Talvez não ranja os dentes e mantenha quietos os pés, como se paralítico alcançasse experimentar-me por tempo qualquer. 
     De meu corpo fiz a contra opção ao manequim possível. Sou o não assentar-se da roupa, a imutável possibilidade de uma simplicidade gritante. Hábito escasso, desgraçado formato de tornar-se invisível. Cabelos, pança e algum bigode inexistente que sobra-me da negligência. Estirão cansado e nariz entupido. Tenho atropelado-me assim, antes mesmo de escancarar os olhos.

terça-feira, novembro 27, 2012



Dias que não pesam na alma são como almas que não sentem os dias. Somos inteiramente um engano proposital, esperando a solução milagrosa ao fato incurável. Tenho medo da alegria. Parece-me falta de caráter declarar que os minutos não castigam-nos. Relógios parados são a felicidade de tudo, e tudo é a impossibilidade de que os relógios parem. Pessoas, conversas e intenções, ratos, cidades ou não, tudo é realmente tudo. O nada dos passarinhos, a beatitude a que fomos excluídos, perturbam a capacidade de confirmar os compromissos da felicidade humana. Sentir-se vazio é um exercício que cabe aos loucos. A simples idéia de que ao escapar dos limites de meu próprio corpo, sou o nada que não sobrevive à necessidade de ser. Ser, planejar e agir. Essa é a ilusão imensa a que submete-se o homem. Essa é a perdição sufocante que resta a mim. Imaginar como se a realidade fizesse parte de meus sonhos. Como se não houvesse sonhos. Como se não houvesse nada que não fosse o próprio nada. Vazio como o final da noite, simples como gangorra de praça.
              
Passara numa rua próxima ao trabalho. Alterava outra vez o caminho de volta. As calçadas cheiravam à goiaba. Parecia que as recém caídas carregavam alguma peculiaridade no aroma, diferenciando-se das que ainda aos galhos agarravam-se. Podia sentir que aquelas, ainda redondas e recheadas, cheiravam como casca, como cesta lotada à espera de um devorador. Outras pobres esparramadas pelo chão, cheiravam à morte. Sementes e polpas perdidas. Vi-me tão inexistente quanto o esparramado de sementes no concreto útil aos pedestres. Tinha peregrinos na alma e a impossibilidade de renascimento tão concreta quanto a sabedoria de uma semente.  
         
Via nas possibilidades do sol alguma mudança primordial que diferenciava o aroma dos dias. Eram escuros, intensos, lotados de velas acesas ou propícios para o pranto incessante. Se os dias fossem realmente idênticos, talvez nós, pedestres, motoristas e passageiros, fossemos diferentes um do outro. Não da maneira que fingem as professoras, ou que comprovam os inteligentes, mas de maneira certa, como as possibilidades do dia. Pedestres, motoristas e passageiros. Que mais somos? Parecemo-nos aonde com algo distinto à isso? A impotência frente ao desafio da liberdade. Motos, cadernos, fogões e panelas. A vida não se divide em etapas, como atestam os mesmos professores e inteligentes. A vida divide-se nela mesma, como vento carregando vento. 

segunda-feira, novembro 12, 2012

Da Violência


                Alguns séculos de existência e a mania incessante de negar as guerras. Levantes, revoltas e inquietações firmam nossa trivial capacidade de fazer-nos humanos. Há quem reflita-se pacífico. Há os que se consideram pacatos e sossegados. Ilusão. Útil equívoco aos labirintos da mente, que frente ao caos, lamenta-se por fazer parte das catástrofes. As reclamações frente ao vizinho, as queixas ao taxista e a indignação com a política, com a segurança, são métodos práticos de encenarmos a paz que jamais praticamos. Somos o que Hobbes considerou os lobos de nós mesmos, e temos incrível tendência ao ódio, ao crime e à violência. Sem o problema, não havemos. Sem a hostilidade e seu frenesi, não somos mais do que espectadores infelizes de uma peça vazia, desprovida de luzes e ausente dos atores.
              
                 Manifestações de repúdio, atos indiretos de cidadania. O ódio ao ódio é o que nos sobra enquanto habitantes das cidades, das vilas, da internet e dos círculos sociais. Bradamos contra a morte, protestamos a favor de uma paz que não sabemos do que se trata. Criamos a imprensa e a imprensa nos criou. Testemunhas diárias de suas tragédias, ouvintes assíduos de confusões que nem bem existem. O jornalismo, a publicidade, são homens enganando homens, que por sua vez, pensam enganar outros homens, mendicantes, estéreis sociais e fracos. E o círculo fecha-se como maldição. Os desprovidos, violentos e sedentos pela nova fatalidade, somos nós. O criador educado pela cria. O público ávido, que espera sentado os novos assaltos e as novas trapaças, que torna-se saborosa e nutritiva, quando ocorre próxima, mas não tão próxima que a nós atinja diretamente. 

sexta-feira, outubro 05, 2012

Tal


            Passara alguns perrengues durante o inverno. Ia do inchaço na garganta à febre, e da febre à cama. Ardiam-me os ossos do frio, e batiam os dois andares da boca. A primavera reservara-me alguma alergia e o verão não me era saudável. Queria alguma entre-estação que me deixasse adormecer à tarde e despertar à noite, assíduo e fiel às afiadas e fatídicas madrugadas insones, e sem palpitações.
            Fui ao povo. E o povo a mim não veio, como se resistisse duramente às minhas investidas homicidas. Fui ao mesmo porta-retrato em que estou, ríspido e intacto, como em qualquer fotografia. Chorei tantas vezes lembrando do cheiro. O róseo enfumaçado que enrabava as narinas. A ante-sala, repleta de adereços, panos e desculpas esfarrapadas. O cheiro vinha de alguma panela, ou do ranger da mesa, dos cacos de vidro ainda nem consumados, dispostos no copo, inteiro e recheado por cima da pedra cinza. Não era um cheiro. Nem uma lembrança. Era o choro pelo copo, pela solitude da mesa e pelos ires e vires da madeira na panela. Vinha de lá, e assim retornaria ensaboado em alguma fenda que o relógio dedicou a mim.
            Nada tão caseiro quanto a própria casa. A velha casa adocicada, corroída e romantizada pelo impávido olhar do tempo. Os meios e estratagemas, fins e arrependeres. Tudo era cheiro indecifrável, como alguma navalha sem uso, humilhada por entre fêmeas e homossexuais.
            Deito-me outra vez, esperançoso de alguma desesperança. Adormeço e não vejo tudo. Contento-me com a paz da perda, com a salubridade das intenções revogadas, não admitidas e deixadas de lado feito os dias. Lembro de virar-me, de abrir os olhos e querer fechá-los. Lembro-me de uma canção, e dos amores insanos que dediquei masturbações respeitosas, cuidadosamente escritas no tesão em branco. Escuto as veias. Assim espero a próxima enfermidade.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Gosto da idéia de não ser parte de um projeto. Casais buscando a redenção frente aos impostos da naturalidade humana ou a conseqüência inesperada de um hiato na rotina? Amor dedicado aos muitos, num intervalo de tempo que daria em mim. Gosto do conceito de ser o descuido, o deslize, como queda repentina, estraçalho de louça. Como a dessemelhança nítida do fabricado, refletido e repensado, com a poesia ingrata, fugaz e jorrada, sou a imprevisão, a negligência que orna cuidadosamente a arte. Talhado em rocha aleatória, resta-me a sombra ligeira do vento que me esculpiu. Prefiro o acaso, a desencomenda. Gosto da idéia de não ser parte de um projeto.

segunda-feira, agosto 27, 2012



São flores na varanda, mariposas a serem descobertas.
Tantas luas e direções. Discretas possibilidades por entre a serventia das varandas.
Nem flor, nem mariposa, ramo de estaca que gruda as paredes.
Varanda vazia e sincera.
Sincera porque vazia e vazia porque varanda.
Viro planta agarrada, risco de raíz.
Tomo varandas teatrais, direção e argumento.
Ando como parede. Grudo insinceridade nos gânglios, no câncer.
Formalizo a opinião das mariposas.
Enfeito com flores a varanda que não descobri.

terça-feira, agosto 21, 2012

Devemos rever o indivisível Matutar o instantâneo E diluí-lo em rio de nome nordestino. Resta gramaticar o ingramaticável Verbalizar a morte do indicado, presumido. Filar a bóia da palavra nula Infeccionar a sentença Seduzir a possibilidade com pelos curtos Com o rosto lavado De alma e amargura.

segunda-feira, agosto 20, 2012

Falta o ato de sangrar. Rasgar o verbo e esticar a sílaba Fazer palavra não feita Palavra sem tudo Lotada do nada que a supõe palavra Pé de cobra. O que não deve, não classifica. A desclassificação que inclui, que faz poesia. Ré de cabra.

sexta-feira, agosto 17, 2012

O amor

Palha, riacho, frieira e chulé. O amor é ranho, bicho de pé. Físico, alma, bosta e chuveiro. O amor é piso, banheiro. Víscera, glóbulo, cu e calor. O amor é feio, fedor. Mijo, coceira, fagulha e escarro. O amor é barro. Grito, edifício, chupada e luz. o amor é o que resta do pus.

terça-feira, setembro 13, 2011

O filósofo é um tampinha

O que é nobre de ser questionado tem sido motivo recorrente nas academias de filosofia. Séculos de existência e o estudo do conhecimento evolui como o homem. Visto que dele provém, não me espanta que sua linha evolutiva não ultrapasse os limites humanos e nada se diferencie de nossa capacidade. Porém tratando-a de maneira justa, como sim deveria ser tratada a verdadeira filosofia, posso ao menos presumir que ela, estende-se ao horizonte, flexiona-se junto aos verbos e marcha em consonância às rodas automotivas. Aonde quero chegar é na triste posição dos filósofos. Habitantes monótonos do cárcere intelectual, perseguidores cruéis de uma forma desconhecida de pensar o que se deve pensar, por existir, instantâneo, como lógica e charada. Não têm buscado os homens da Filosofia, o descortinar vibratório do universo, o desvendar ingênuo do habitar poético. Pois quero ainda chegar ao ponto mais específico: a linguagem.

Habitamos a linguagem, somos linguagem a cada agitar dos olhos. Antes disso, somos linguagem a cada tentativa de tentar. Essa prisão a que somos acometidos, faz-nos seres. E somos seres porque habitamos a linguagem. Existimos na e para a linguagem, e não o inverso como ferramenta. Ela não nos fornece, não nos ajuda. Disse Heidegger, em um de seus ensaios no A Caminho da Linguagem: “Não é necessário um caminho para a linguagem, e isso seria até impossível, uma vez que já estamos no lugar para o qual o caminho deveria nos conduzir.” Simplesmente não podemos ser se ela não é. No entanto, a fenomenologia do corpo tenta empurrar-nos algo a que os filósofos se dedicaram por todos esses séculos. A definição do que pode comunicar-se e do que é deficiente em comunicar-se. Aí entra a injustiça com a Filosofia, cometida por eles mesmos, os filósofos. Esses homens insossos, inexistentes, por tantas vezes assexuados, que negam o instinto como instinto, que desdenham do sexo em seus sérios tratados, que não aceitam nada afora o palavreado pomposo ou o estudo analítico em suas pífias academias.

Puseram-me à frente, dentre tantas outras insanidades, o senso-comum exacerbado de que podiam sim as mãos comunicarem-se. Que os dedos diziam muito e que os olhos também eram excelentes instrumentos de linguagem. Instrumentos de Linguagem? Logo depois, o pior. Que as nádegas de uma mulher desnuda, preste atenção, as nádegas da fêmea sem as vestes nada tinham a dizer, teorizavam os pensadores. Assim não entendiam como aquilo causava reações ao homem que as fitava. Não entendiam? Pois eu entendia! Porque aquelas nádegas esbanjavam linguagem! Aquela linguagem esbanjava-se abaixo das costas e as coxas suportavam comunicações exacerbadas. Era uma linguagem que, por vezes, atingia o homem como espada, atravessando-o pelos pulmões. Mãos? Que tipo de idiota contestaria que as mãos se comunicam? É claro! Os dedos também, que o digam os surdos! Mas é típico dos filósofos fazer pouco caso das bundas, não falar dos seios e ignorar bocetas! Por isso a Filosofia anda desgastada, enfadonha, travada em séculos de releituras e carente de devaneios, mendigando coragem e desafio. Culpa de homens e mulheres vazios de criação, cientistas, estrábicos leitores que ocupam-se com os mitos gregos, discussões solenes, teorias com faustosas intenções, lotadas de demonstrações de cultura e estudo profundo de uma disciplina inexistente chamada pensamento.

Jonas Lewis