Mata mais que bala de "revórver".
A garota progressista, esquerda de carteirinha, não abre mão de seu baseado com incenso no fim da tarde. Os pets na volta, a banda dos Filhos do Gil tocando na Alexa e fogo na bomba! O investidor engomado da XP afunda o nariz em vários gramas de cocaína enquanto acompanha o sobe e desce do mercado. Na festa de despedida do menino rico, que vai passar um ano lavando pratos na Austrália, a turma se diverte ouvindo funk com balinhas e adesivos alucinógenos. Uns passam mal. Outros não. E os pais buscam o filho babando no hospital, depois de misturar essas paradinhas com Red Bull e vodca.
Ninguém quer o fim do tráfico de drogas. Ninguém se importa com essa porra. Todo mundo quer livre acesso aos sonhos em pó, às anestesias da alma e aos aluguéis momentâneos do paraíso. O povo só não quer traficante preto, sujo e violento na quadra do beach tênis, ou caminhando de tornozeleira pela Praça de Alimentação do Shopping. Assim como tiozinho não quer o fim da prostituição, mas não tolera puta desfilando pelo pátio do condomínio onde mora com sua família cristã e um Shih-Tzu com nome de gente. Ninguém quer o fim da sonegação e da evasão fiscal, que, com a malandragem de planilha, traveste-se de esperteza, assaltando invisivelmente e cheirando a perfume importado.
Mas o que mais me impressiona é a audácia da elite e de sua vassala classe média, que horroriza-se e condena os traficantes e os garotos pretos que empunham fuzis. Faz-se, ao mesmo tempo, alheia, vendada e indiferente ao fato de que o esgoto corre a céu aberto nas favelas e periferias, e que os ratos são assíduos moradores desses barracos onde habitam tais garotos. Cegos por escolha, elite e classe média preferem a miopia incapacitante, as pupilas dormidas e anestesiadas, e dormem sobre a verdade de que nenhum desses garotos foi à escola, bebeu boa água e alimentou-se decentemente. São corpos privados de mundo, estatísticas sem esperança, sem médico e sem espaços honestos de lazer e infância.
Não há furto, assassinato ou roubo na sinaleira capaz de rivalizar com o crime lícito, cometido, há séculos, pelo Estado brasileiro. A negação da humanidade aos seus cidadãos, de forma contínua, silenciosa ou barulhenta, e o esquecimento programado de uma cultura negra e fundadora, são delinquências indesculpáveis, hediondas e inclementes. Marginalizar a sobra da “Mão da Limpeza” e tiranizar as mãos nigerianas, Iorubás, Bantas, Jejes e Nagôs que, há pouco, construíam as casas, levantavam igrejas e sustentavam o país com o peso do próprio corpo — é um delito sangrento, bárbaro e covarde.
Naturalizamos a negligência, normalizamos a omissão e moldamos a desigualdade como se fosse destino. De forma vil e infame, limitamos o herdeiro preto às margens intangíveis da cidade e condenamos suas famílias a viverem sem férias, sem escola, sem bons automóveis, sem boa leitura, sem intercâmbios, brinquedos novos e, principalmente, sem o pertencimento ao mundo, e sem o direito de imaginar o futuro, coabitando a infância como sobrevivência, e jamais como descoberta. Empurramos seus corpos para a distância e, com eles, seus sonhos, para que não se aproximem demais do nosso privilégio.
Deveríamos cessar o teatro do espanto. Parar de aplaudir o covarde combate à criminalidade minúscula. E, como brasileiros, abandonar a atenção ao roubo de iPhones e à boca de fumo. Voltar os fuzis da moralidade para o crime que se assina em gabinete, que se planeja em relatório e que se reconduz com voto. Atentar ao delito silencioso, costumeiro e ideológico, que se disfarça de burocracia, de orçamento, de política pública. O crime que não estampa manchete, mas decide quem vai nascer com futuro e quem vai rebentar sem escolha ou condenado a servir — como sombra, como corpo útil, como mão que sustenta o conforto dos brancos e abonados, fadados a carregar o peso dos que nasceram leves, de casas cercadas, poupados da história e desinfetados da miséria. É preciso enxergar a desigualdade como a verdadeira arma, e o apagamento da negritude como estratégia de dominação e desaparecimento. Porque o silêncio planejado, o esquecimento das raízes e a negação do valor das infâncias que crescem sem espelho e sem festa de aniversário, são metralhadoras implacáveis, perversas e lancinantes.
Não há Brasil sem a austera retratação com as crianças pretas, com o povo que, mesmo dono dessas terras, ainda pede licença pra existir. Não há nação sem que se devolva o direito ao riso solto, à arte, à inteligência. E é preciso que essas vozes — antes sussurros — passem a soar mais altas que os hinos, que as marchas e os discursos que tentam manter cada um no seu lugar, apagando a negritude, mascarando a desigualdade e amamentando a fantasia de um país melhor sem os garotos do tráfico. Discursos que disfarçam o medo de igualdade, que insistem em manter o pobre na margem, o preto na sombra e o menino do morro ensanguentado no colo da mãe.
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