A Democracia do Figurino
Há tempos desconfio que as posições políticas das pessoas não brotam, de fato, das tais convicções, mas de um modo secreto de pentear o mundo por fora. Antes de qualquer ideia nasce o feitio: um gesto calculado sem pensar, um corte de cabelo que pretende dizer mais do que a boca, o hábito de ajeitar os óculos ao nariz como quem carimba, para si, a própria licença de existir. É ali, nesse miudinho, que a política encosta. E não no espesso livro, mas na silenciosa vaidade que cada um cultiva como marca registrada do espírito.
Não estou sozinho, obviamente. Carrego comigo a insistente e talentosa sombra — já tão citada, debatida e esgarçada nos corredores dos cursos de Pedagogia. Pierre Bourdieu, o francês que enxergava a sociedade como um grande baile de gestos e maneirismos, traz a ossatura do que me vem à mente e desmonta a ilusão das escolhas puras: gostos, modos, leituras, trajes e trejeitos são os clarões de convicção que fundam as brasas políticas do indivíduo. Para ele, política é antes de tudo feição, desdobramento natural do habitus, esse corpo social que nos veste por dentro, moldando nossas quedas e simpatias como quem talha o gesto de um rosto ou o timbre de um sotaque.
Em tempos de discussões reduzidas a gritos de tela, sabedorias instantâneas embaladas em vídeos de quinze segundos e uma polarização que engole até o silêncio, vale recordar o óbvio esquecido: o voto, as certezas e as bandeiras que agitamos são roupas de alma — não se escolhem apenas pela razão, mas porque repousam bem sobre o corpo social que nos sustenta. Antes de qualquer argumento, vem o tecido: o corte que veste melhor a nossa história, a cor que casa com o nosso pertencimento, o caimento que confirma quem somos perante os olhos alheios.
A política, vista de perto, é menos uma construção de ideias e mais um artesanato de imagens. Uma costura íntima entre aquilo que desejamos parecer e o bando que desejamos habitar. Há quem pense que convicção nasce do intelecto; eu, não. Tenho para mim que ela nasce da pele — daquela parte da pele que se estende até o espelho, pedindo aprovação silenciosa.
E se somos tão estéticos assim, tão dados a moldar a alma conforme o figurino, era inevitável que buscássemos também os heróis. Não os clássicos, a cavalo, resolvendo dilemas morais, mas os heróis de postura, de frase cortante, de queixo tenso. Num desses acasos surgiu o Capitão Nascimento: triunfo cinematográfico, sem dúvida — serviço brilhante à arte, ao enquadramento e ao roteiro amarrado. Mas, ao mesmo tempo, um desserviço à estética política do povo, posto que nos fez admirar o torturador como se admira o atleta; cultuar o assassino como se cultua o paladino; repetir suas frases acreditando que ali havia coragem, quando havia apenas o teatro da brutalidade. Capitão Nascimento, mais do que personagem, virou acessório identitário: uma estética de guerra vendida como convicção. Um protótipo pronto para quem precisava de alguém que decidisse o mundo a golpes secos.
E se a direita e o conservadorismo elegem seus Capitães Nascimentos, a esquerda também fabrica seus próprios “santos estéticos”, trocando apenas o uniforme. Modelos de virtude lapidados no imaginário, cabendo direitinho na moldura do progressismo desejado. Não importa se o santo é humano, contraditório, repleto de frestas — a esquerda, como qualquer tribo, precisa de rostos para pendurar suas esperanças; precisa de figuras que funcionem como bússola e medalhão.
Com gerações de “ecobaggers” e veganos que brigam com a mãe por causa de um salame italiano, o povo do progresso prefere as “figuras humanas”: sensibilidades mansas, camisetas desbotadas, um livro sempre à mostra e um sofrimento histórico guardado no bolso interno da jaqueta. Ídolos que parecem brotar do cruzamento entre oficina de artes e assembleia estudantil, carregando o ar de quem entende o mundo porque já chorou por ele. A estética progressista adora personagens pacíficos, iluminados, levemente boêmios — seres de aura macia, com a indignação justa dos puros e o charme intelectual de quem cita poesia até para pedir troco. É gente que desfila a paz como quem desfila ideologia: um jeito de dizer “sou melhor do que a briga”, enquanto se envolve apenas nas brigas certas para manter a imagem polida.
É uma pena. A política, essa criatura que deveria nascer do encontro entre a justiça e a coragem, torna-se cada vez mais estampa, vitrine, escrava do pertencimento. Dobra-se mais ao costume social do que ao impulso de mudar o que precisa ser mudado. Forma-se menos na fábrica e na rua que arde, e mais no espelho que aprova. Somos reféns dessa liturgia de aparências; escolhemos sotaques como quem escolhe máscara, quase sempre sem perceber.
E nada de novo vai acontecer. Os de sempre — herdeiros do conforto, donos das chaves — seguirão onde estão. O resto, perdido entre símbolos e slogans, permanecerá no térreo acreditando que postura é pensamento e que justiça é acessório do discurso. Não há milagre possível. Afora os abonados e a velha elite — esses que sobem por qualquer escada —, quando o caso for a dignidade e a evolução real do povo, não adianta posar convicção na rede social: enquanto a política for tratada como estética de pertencimento, e não como filosofia, estudo e coragem de transformação, Capitão Nascimento nos dirá, com a voz eufórica de quem porta um fuzil: “não vai subir ninguém.”
Jonas Lewis
Jonas Lewis



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