O livro MENOS vendido da Feira do Livro
Não vendi um único exemplar na Feira do Livro. Nenhum leitor, desses atentos, apaixonados pelas letras, curiosos de parágrafos alheios — interrompeu o passo diante da banca e pensou, com súbita convicção: “é este”. Ninguém estendeu a mão, ninguém levou o livro para casa, ninguém o abriu como quem encontra um pequeno incêndio para devorar antes de dormir.
E, no entanto, foi justamente o silêncio desse esquecimento que me acendeu uma antiga pergunta: por que escrevo? Por que voltaria eu à mesa, ao caderno, ao brilho teimoso da chapa em branco? O que me faria insistir, depois de ver meu livro atravessar a feira como atravessa um fantasma — presente, mas não tocado?
Se para Kafka, o solitário artífice do desamparo, escrever era o único modo de existir em silêncio, e de estar sozinho sem afligir-se da solidão, para o velho Saramago o ato da escrita já nasce voltado para fora — para alguém que há de completar a travessia: “o que escrevo sempre é pergunta; a resposta cabe ao leitor.”
A mim, fazer literatura é como quase tudo que há no mundo: arroz e feijão. Chuva e seca, o sal da lágrima e a doçura do riso, sombra imensa e luz miúda. Apolíneo e Dionisíaco, esse par de opostos tão poderosos na filosofia ocidental. O ato de sangrar-se, como em remédio, esvaziando nas orações um tanto dos traumas, das esperanças e das histórias. A literatura nasce antes — naquele lugar secreto em que uma frase pede outra, em que uma imagem insiste, em que a mão, quase sem pedir licença, volta a procurar a palavra. É isso, e é outro. Como talvez tenha reputado, fortuitamente, Saramago.
Escrever é, também, um reincidente exercício narcísico: o sujeito se dobra sobre si mesmo, alisa a frase como quem ajeita o próprio rosto na água, escolhe e recolhe palavras, troca as que falham, aprimora as que brilham — tudo para ver surgir, no texto, um eu que talvez nem exista fora dele. É vaidade tímida, quase envergonhada: a gente talha o texto para si, mas deixa, num sem querer deliberado, umas frestas abertas — uma porta delicada de claridade — por onde o outro possa entrar. Porque o escritor, no fundo, anseia essa presença quieta que vira a página no seu compasso, respira junto com a narrativa e, num gesto que ninguém vê, completa o sentido que jamais conseguiria sozinho.
Escrever é bicho de duas cabeças. Como tudo que é bicho, aliás. De primeiro, esse derramar para dentro, um exercício de cura e de espelho: a mão cavoucando o próprio peito, ajeitando palavras como quem organiza um quarto em desordem. É curativo, válvula, respiração. E depois, a intenção menos confessável: a premência de ser lido, quase compreendido, e amado até. Porque o escritor carrega em si um tipo terno de mau-caratismo, como o que revela um sedutor motivado, diante do ser passível de ser provocado, embevecido e capturado. Afinal, seduzir alguém é um ato corrupto e cínico que a muitos desperta imenso regozijo. O sedutor é um crápula, um perigoso e encantador trapaceiro.
E talvez seja isso que reste, no fim das contas: essa perversa delicadeza de quem escreve tentando fisgar um coração alheio, mesmo quando falha miseravelmente na empreitada. Ou a vontade de livrar o que já não cabe no peito, a urgência de sangrar o verbo que lateja escondido. Porque não vendi um único exemplar na Feira do Livro — e, ainda assim, voltei para casa com a vontade antiga intacta, teimando em mim como febre boa.
Escrevo porque as palavras me empurram, me atravessam e me pedem passagem, como o T1 acelerando na Ipiranga. Escrevo para fazer nascer de mim o que, numa conversa, morreria antes da primeira sílaba. Escrevo porque certas coisas não sabem sair pela boca: precisam da lenta gestação das frases, da respiração profunda do silêncio e do abrigo de uma página que não se assusta com o excesso. Escrevo para sobreviver às marés que me submergem. Escrevo porque há mundos que só existem quando eu os digo. E, se eu não os disser, eles me devoram. Escrevo para dar destino ao que me sobra, para dar casa ao que me falta. Escrevo porque, no fundo, a palavra é o único modo que tenho de transformar o que me dói em claridade, e o que me ilumina em permanência. E talvez seja isso — só isso e tudo isso — que me faça tentar de novo: outro livro, outra feira, outro fracasso; essa teimosia de continuar parindo sentidos onde a vida, sozinha, não daria nenhum.
Jonas Lewis



1 Comments:
Jonas,sou e serei sempre uma leitora dos teus textos! Adorei "A carne do Rio"
Sabia que a pérola é produzida dentro da concha a partir do caos?
Abraço
Postar um comentário
<< Home