quinta-feira, dezembro 18, 2025

ESPERMOGRAMA

Foi-me solicitado pela doutora um exame que avaliasse a destreza e a quantidade do sêmen. Chamam-lhe espermograma, no vocabulário clínico — palavra usada com naturalidade por quem a pronuncia de jaleco. Depois das marcações e das informações, fui oficialmente convocado a cinco dias de abstinência sexual. Decerto o laboratório chama isso de preparo. Eu chamaria de pausa administrável. Nada de martírio, posto que, frente às distrações modernas — telas luminosas, prazos e cansaços —, os cinco dias de castidade soaram quase como rotina.

No dia do exame, pus minha corriqueira roupa discreta e cômoda, propícia à ocasião masturbatória, e fui ao centro, já ciente dos possíveis embaraços. Praça Dom Feliciano, gente por todo lado, paro numa daquelas garagens de andares múltiplos. Não havia comido nada e pensei que, talvez, o jejum fosse desaconselhável à punheta. Padaria Roquete. Opa, é isso mesmo? Foi quase. Tá tudo estranho. Tudo me lembra putaria. Serve essa.
– Me dá um pastel desse?
– Quer que esquente?

– Não precisa. Só o pastel mesmo já resolve.

A gringa me entregou o troço envolto num papel branco, engordurado. Na primeira mordida, a coisa era boa. Carne molhadinha e metade de um ovo. Será que ovo ajuda no tesão? Eu sinto que vou precisar. Comi só metade, como se a bronha me fosse exigir algum esforço físico. Eu não queria bater punheta de barriga cheia. Não deve fazer bem.

No prédio do laboratório entro com o lanche na mão. O porteiro me olha com cara de quem sabia das minhas intenções. E logo na recepção, duas senhoras. Por entre exames de sangue, ressonâncias, ecografias e endoscopias, jamais eu tinha sido atendido por duas senhoras tão velhas. Não que encontrasse a Julia Roberts nas recepções por aí, mas puta que me pariu! Tinha que ser logo hoje?

– É o senhor que tem uma coleta agora a uma?

Ela me perguntou como se ninguém mais batesse punheta ali. E fosse coisa especial. Será que ao menos prepararam algo? O meu nível de tesão naquele momento era abaixo de zero, coisa de madrugada no Polo Sul, com vento contra e sem casaco, indo buscar uma Skol que esquecera fora do iglu.

– É só esperar que ela te chama na hora marcada.

Constrangido, sentei sozinho nas cadeiras carrancudas do local. Pensei em comer o resto do pastel. Desisti. Vou é pegar um copo d'água num daqueles filtros em que a gente escolhe “natural ou gelada”. Ela me chama na hora marcada? Ela quem, meu deus? Talvez tenha uma equipe especializada lá pra dentro. Gente acostumada com masturbação alheia.

E chegou a hora. Equipe especializada meu ovo! Quem me chamou foi a senhora da recepção, com cara de quem chama um futuro punheteiro humilhado.

– É aqui, senhor. Vou pedir pro senhor coletar e deixar em cima dessa mesinha.

Sala inóspita, antipática, cheia de luvas de látex e seringas. Uma janela disfarçada que oferecia a paisagem lá da rua. Tomara que tenha aquelas películas, e que ninguém esteja assistindo a essa cena. Pensei em perguntar, mas a velha já tinha vazado. Quem quer ficar tirando dúvidas de punheteiro?

Não havia filme, revista, televisão, nada. Em minha cabeça eu imaginava que esses caras, ao menos, te ofereciam algum apoio logístico. Um folder, uma orientação motivacional, qualquer coisa que dissesse boa sorte. Não havia pornô, nem putaria, nem sequer um cartaz de mulher pelada como aqueles de borracharia ou presídio. O laboratório confiava inteiramente na imaginação — que, naquele momento, também se recusava a colaborar. Nenhuma nudez, nada. Ai que saudade da Emmanuelle ou das madrugadas na Band.

Apelei ao telefone. O vexame só aumentaria. Tentei conectar no wi-fi, já com o pinto na mão. Senha incorreta. Vamos no 5G. Será que paguei a Vivo? O que eu pesquiso nessa merda de Google? Imagens e vídeos que me façam gozar rápido, num potinho de tampa vermelha? Poupo-lhes dos detalhes abjetos. Termino o serviço, meio suado e preocupado com o pacote de dados do telefone, que deve ter ido pra banha!

Saí rápido da salinha, cruzei o pálido corredor e passei pela recepção.

– É isso? – perguntei atrapalhado.

– É isso. Muito obrigado, senhor.

Puta merda, ela me agradeceu. Foi a primeira vez que alguém ficou grato com minha punheta. E que punheta melancólica, triste, vulnerável! Acabrunhado em uma sala de laboratório, com velhas uniformizadas do lado de fora, sem pornô, sem tesão, sem motivação. Eu preferia uma colonoscopia, coisa simples, desacordado! Alheio pela anestesia a tudo que se passava pelo cu ou pelos intestinos. Será que agora eu podia comer o resto do pastel? Ou era melhor dar um tempo?

Passei pelo porteiro na saída, e juro que escutei ele me perguntando:

– Conseguiu?

Mas eu devia estar ouvindo coisas! E caminhei pelo centro com cara de quem havia batido uma bronha a menos de um minuto. Será que punheta deixa cheiro na gente? Tá todo mundo me olhando! Entro tímido no elevador da garagem, onde havia deixado o automóvel. Um casal segura a porta e vem comigo. E eu, há pouco com o pau na mão, agora perguntava o andar que eles iriam descer. A gente devia ter um tempo sem convívio social depois de certas humilhações. Eles sacaram que eu tinha me masturbado. Certeza.

Já no carro, protegido de olhares e desconfianças, cruzei lojas, óticas, lancherias e sebos. Fiz a volta no agitado e concorrido Centro, passando outra vez em frente ao prédio do laboratório. E “a lá”!! Olha o motoboy saindo com meu esperma numa maletinha! Coitado! Tá mais fodido que eu. Agora tem que levar essa porra até um outro lugar, debaixo desse sol.

Segui dirigindo com a sensação estranha de ter participado de algo íntimo demais para um dia comum. Eu voltava pra casa com a dignidade levemente desalinhada e a certeza de que a ciência avança graças a pessoas dispostas a passar por pequenas humilhações. Algumas anônimas. Outras, absolutamente memoráveis. Algumas coisas deveriam vir com aviso prévio, período de quarentena e direito absoluto ao anonimato. O espermograma não. Ele apenas acontece. E te devolve à rua como se nada tivesse ocorrido, com cara de punheteiro.