quinta-feira, novembro 27, 2025

A Democracia do Figurino




Há tempos desconfio que as posições políticas das pessoas não brotam, de fato, das tais convicções, mas de um modo secreto de pentear o mundo por fora. Antes de qualquer ideia nasce o feitio: um gesto calculado sem pensar, um corte de cabelo que pretende dizer mais do que a boca, o hábito de ajeitar os óculos ao nariz como quem carimba, para si, a própria licença de existir. É ali, nesse miudinho, que a política encosta. E não no espesso livro, mas na silenciosa vaidade que cada um cultiva como marca registrada do espírito.

Não estou sozinho, obviamente. Carrego comigo a insistente e talentosa sombra — já tão citada, debatida e esgarçada nos corredores dos cursos de Pedagogia. Pierre Bourdieu, o francês que enxergava a sociedade como um grande baile de gestos e maneirismos, traz a ossatura do que me vem à mente e desmonta a ilusão das escolhas puras: gostos, modos, leituras, trajes e trejeitos são os clarões de convicção que fundam as brasas políticas do indivíduo. Para ele, política é antes de tudo feição, desdobramento natural do habitus, esse corpo social que nos veste por dentro, moldando nossas quedas e simpatias como quem talha o gesto de um rosto ou o timbre de um sotaque.

Em tempos de discussões reduzidas a gritos de tela, sabedorias instantâneas embaladas em vídeos de quinze segundos e uma polarização que engole até o silêncio, vale recordar o óbvio esquecido: o voto, as certezas e as bandeiras que agitamos são roupas de alma — não se escolhem apenas pela razão, mas porque repousam bem sobre o corpo social que nos sustenta. Antes de qualquer argumento, vem o tecido: o corte que veste melhor a nossa história, a cor que casa com o nosso pertencimento, o caimento que confirma quem somos perante os olhos alheios.

A política, vista de perto, é menos uma construção de ideias e mais um artesanato de imagens. Uma costura íntima entre aquilo que desejamos parecer e o bando que desejamos habitar. Há quem pense que convicção nasce do intelecto; eu, não. Tenho para mim que ela nasce da pele — daquela parte da pele que se estende até o espelho, pedindo aprovação silenciosa.

E se somos tão estéticos assim, tão dados a moldar a alma conforme o figurino, era inevitável que buscássemos também os heróis. Não os clássicos, a cavalo, resolvendo dilemas morais, mas os heróis de postura, de frase cortante, de queixo tenso. Num desses acasos surgiu o Capitão Nascimento: triunfo cinematográfico, sem dúvida — serviço brilhante à arte, ao enquadramento e ao roteiro amarrado. Mas, ao mesmo tempo, um desserviço à estética política do povo, posto que nos fez admirar o torturador como se admira o atleta; cultuar o assassino como se cultua o paladino; repetir suas frases acreditando que ali havia coragem, quando havia apenas o teatro da brutalidade. Capitão Nascimento, mais do que personagem, virou acessório identitário: uma estética de guerra vendida como convicção. Um protótipo pronto para quem precisava de alguém que decidisse o mundo a golpes secos.

E se a direita e o conservadorismo elegem seus Capitães Nascimentos, a esquerda também fabrica seus próprios “santos estéticos”, trocando apenas o uniforme. Modelos de virtude lapidados no imaginário, cabendo direitinho na moldura do progressismo desejado. Não importa se o santo é humano, contraditório, repleto de frestas — a esquerda, como qualquer tribo, precisa de rostos para pendurar suas esperanças; precisa de figuras que funcionem como bússola e medalhão.

Com gerações de “ecobaggers” e veganos que brigam com a mãe por causa de um salame italiano, o povo do progresso prefere as “figuras humanas”: sensibilidades mansas, camisetas desbotadas, um livro sempre à mostra e um sofrimento histórico guardado no bolso interno da jaqueta. Ídolos que parecem brotar do cruzamento entre oficina de artes e assembleia estudantil, carregando o ar de quem entende o mundo porque já chorou por ele. A estética progressista adora personagens pacíficos, iluminados, levemente boêmios — seres de aura macia, com a indignação justa dos puros e o charme intelectual de quem cita poesia até para pedir troco. É gente que desfila a paz como quem desfila ideologia: um jeito de dizer “sou melhor do que a briga”, enquanto se envolve apenas nas brigas certas para manter a imagem polida.

É uma pena. A política, essa criatura que deveria nascer do encontro entre a justiça e a coragem, torna-se cada vez mais estampa, vitrine, escrava do pertencimento. Dobra-se mais ao costume social do que ao impulso de mudar o que precisa ser mudado. Forma-se menos na fábrica e na rua que arde, e mais no espelho que aprova. Somos reféns dessa liturgia de aparências; escolhemos sotaques como quem escolhe máscara, quase sempre sem perceber.
E nada de novo vai acontecer. Os de sempre — herdeiros do conforto, donos das chaves — seguirão onde estão. O resto, perdido entre símbolos e slogans, permanecerá no térreo acreditando que postura é pensamento e que justiça é acessório do discurso. Não há milagre possível. Afora os abonados e a velha elite — esses que sobem por qualquer escada —, quando o caso for a dignidade e a evolução real do povo, não adianta posar convicção na rede social: enquanto a política for tratada como estética de pertencimento, e não como filosofia, estudo e coragem de transformação, Capitão Nascimento nos dirá, com a voz eufórica de quem porta um fuzil: “não vai subir ninguém.”


                                                                                                                    Jonas Lewis

domingo, novembro 16, 2025

O livro MENOS vendido da Feira do Livro

     


Não vendi um único exemplar na Feira do Livro. Nenhum leitor, desses atentos, apaixonados pelas letras, curiosos de parágrafos alheios — interrompeu o passo diante da banca e pensou, com súbita convicção: “é este”. Ninguém estendeu a mão, ninguém levou o livro para casa, ninguém o abriu como quem encontra um pequeno incêndio para devorar antes de dormir. 

E, no entanto, foi justamente o silêncio desse esquecimento que me acendeu uma antiga pergunta: por que escrevo? Por que voltaria eu à mesa, ao caderno, ao brilho teimoso da chapa em branco? O que me faria insistir, depois de ver meu livro atravessar a feira como atravessa um fantasma — presente, mas não tocado?


Se para Kafka, o solitário artífice do desamparo, escrever era o único modo de existir em silêncio, e de estar sozinho sem afligir-se da solidão, para o velho Saramago o ato da escrita já nasce voltado para fora — para alguém que há de completar a travessia: “o que escrevo sempre é pergunta; a resposta cabe ao leitor.”


A mim, fazer literatura é como quase tudo que há no mundo: arroz e feijão. Chuva e seca, o sal da lágrima e a doçura do riso, sombra imensa e luz miúda. Apolíneo e Dionisíaco, esse par de opostos tão poderosos na filosofia ocidental. O ato de sangrar-se, como em remédio, esvaziando nas orações um tanto dos traumas, das esperanças e das histórias. A literatura nasce antes — naquele lugar secreto em que uma frase pede outra, em que uma imagem insiste, em que a mão, quase sem pedir licença, volta a procurar a palavra. É isso, e é outro. Como talvez tenha reputado, fortuitamente, Saramago. 


Escrever é, também, um reincidente exercício narcísico: o sujeito se dobra sobre si mesmo, alisa a frase como quem ajeita o próprio rosto na água, escolhe e recolhe palavras, troca as que falham, aprimora as que brilham — tudo para ver surgir, no texto, um eu que talvez nem exista fora dele. É vaidade tímida, quase envergonhada: a gente talha o texto para si, mas deixa, num sem querer deliberado, umas frestas abertas — uma porta delicada de claridade — por onde o outro possa entrar. Porque o escritor, no fundo, anseia essa presença quieta que vira a página no seu compasso, respira junto com a narrativa e, num gesto que ninguém vê, completa o sentido que jamais conseguiria sozinho.

Escrever é bicho de duas cabeças. Como tudo que é bicho, aliás. De primeiro, esse derramar para dentro, um exercício de cura e de espelho: a mão cavoucando o próprio peito, ajeitando palavras como quem organiza um quarto em desordem. É curativo, válvula, respiração. E depois, a intenção menos confessável: a premência de ser lido, quase compreendido, e amado até. Porque o escritor carrega em si um tipo terno de mau-caratismo, como o que revela um sedutor motivado, diante do ser passível de ser provocado, embevecido e capturado. Afinal, seduzir alguém é um ato corrupto e cínico que a muitos desperta imenso regozijo. O sedutor é um crápula, um perigoso e encantador trapaceiro.

E talvez seja isso que reste, no fim das contas: essa perversa delicadeza de quem escreve tentando fisgar um coração alheio, mesmo quando falha miseravelmente na empreitada. Ou a vontade de livrar o que já não cabe no peito, a urgência de sangrar o verbo que lateja escondido. Porque não vendi um único exemplar na Feira do Livro — e, ainda assim, voltei para casa com a vontade antiga intacta, teimando em mim como febre boa. 


Escrevo porque as palavras me empurram, me atravessam e me pedem passagem, como o T1 acelerando na Ipiranga. Escrevo para fazer nascer de mim o que, numa conversa, morreria antes da primeira sílaba. Escrevo porque certas coisas não sabem sair pela boca: precisam da lenta gestação das frases, da respiração profunda do silêncio e do abrigo de uma página que não se assusta com o excesso. Escrevo para sobreviver às marés que me submergem. Escrevo porque há mundos que só existem quando eu os digo. E, se eu não os disser, eles me devoram. Escrevo para dar destino ao que me sobra, para dar casa ao que me falta. Escrevo porque, no fundo, a palavra é o único modo que tenho de transformar o que me dói em claridade, e o que me ilumina em permanência. E talvez seja isso — só isso e tudo isso — que me faça tentar de novo: outro livro, outra feira, outro fracasso; essa teimosia de continuar parindo sentidos onde a vida, sozinha, não daria nenhum.



                                 Jonas Lewis


domingo, novembro 02, 2025

Mata mais que bala de "revórver".



A garota progressista, esquerda de carteirinha, não abre mão de seu baseado com incenso no fim da tarde. Os pets na volta, a banda dos Filhos do Gil tocando na Alexa e fogo na bomba! O investidor engomado da XP afunda o nariz em vários gramas de cocaína enquanto acompanha o sobe e desce do mercado. Na festa de despedida do menino rico, que vai passar um ano lavando pratos na Austrália, a turma se diverte ouvindo funk com balinhas e adesivos alucinógenos. Uns passam mal. Outros não. E os pais buscam o filho babando no hospital, depois de misturar essas paradinhas com Red Bull e vodca.

Ninguém quer o fim do tráfico de drogas. Ninguém se importa com essa porra. Todo mundo quer livre acesso aos sonhos em pó, às anestesias da alma e aos aluguéis momentâneos do paraíso. O povo só não quer traficante preto, sujo e violento na quadra do beach tênis, ou caminhando de tornozeleira pela Praça de Alimentação do Shopping. Assim como tiozinho não quer o fim da prostituição, mas não tolera puta desfilando pelo pátio do condomínio onde mora com sua família cristã e um Shih-Tzu com nome de gente. Ninguém quer o fim da sonegação e da evasão fiscal, que, com a malandragem de planilha, traveste-se de esperteza, assaltando invisivelmente e cheirando a perfume importado.

Mas o que mais me impressiona é a audácia da elite e de sua vassala classe média, que horroriza-se e condena os traficantes e os garotos pretos que empunham fuzis. Faz-se, ao mesmo tempo, alheia, vendada e indiferente ao fato de que o esgoto corre a céu aberto nas favelas e periferias, e que os ratos são assíduos moradores desses barracos onde habitam tais garotos. Cegos por escolha, elite e classe média preferem a miopia incapacitante, as pupilas dormidas e anestesiadas, e dormem sobre a verdade de que nenhum desses garotos foi à escola, bebeu boa água e alimentou-se decentemente. São corpos privados de mundo, estatísticas sem esperança, sem médico e sem espaços honestos de lazer e infância.

Não há furto, assassinato ou roubo na sinaleira capaz de rivalizar com o crime lícito, cometido, há séculos, pelo Estado brasileiro. A negação da humanidade aos seus cidadãos, de forma contínua, silenciosa ou barulhenta, e o esquecimento programado de uma cultura negra e fundadora, são delinquências indesculpáveis, hediondas e inclementes. Marginalizar a sobra da “Mão da Limpeza” e tiranizar as mãos nigerianas, Iorubás, Bantas, Jejes e Nagôs que, há pouco, construíam as casas, levantavam igrejas e sustentavam o país com o peso do próprio corpo — é um delito sangrento, bárbaro e covarde.

Naturalizamos a negligência, normalizamos a omissão e moldamos a desigualdade como se fosse destino. De forma vil e infame, limitamos o herdeiro preto às margens intangíveis da cidade e condenamos suas famílias a viverem sem férias, sem escola, sem bons automóveis, sem boa leitura, sem intercâmbios, brinquedos novos e, principalmente, sem o pertencimento ao mundo, e sem o direito de imaginar o futuro, coabitando a infância como sobrevivência, e jamais como descoberta. Empurramos seus corpos para a distância e, com eles, seus sonhos, para que não se aproximem demais do nosso privilégio.

Deveríamos cessar o teatro do espanto. Parar de aplaudir o covarde combate à criminalidade minúscula. E, como brasileiros, abandonar a atenção ao roubo de iPhones e à boca de fumo. Voltar os fuzis da moralidade para o crime que se assina em gabinete, que se planeja em relatório e que se reconduz com voto. Atentar ao delito silencioso, costumeiro e ideológico, que se disfarça de burocracia, de orçamento, de política pública. O crime que não estampa manchete, mas decide quem vai nascer com futuro e quem vai rebentar sem escolha ou condenado a servir — como sombra, como corpo útil, como mão que sustenta o conforto dos brancos e abonados, fadados a carregar o peso dos que nasceram leves, de casas cercadas, poupados da história e desinfetados da miséria. É preciso enxergar a desigualdade como a verdadeira arma, e o apagamento da negritude como estratégia de dominação e desaparecimento. Porque o silêncio planejado, o esquecimento das raízes e a negação do valor das infâncias que crescem sem espelho e sem festa de aniversário, são metralhadoras implacáveis, perversas e lancinantes.

Não há Brasil sem a austera retratação com as crianças pretas, com o povo que, mesmo dono dessas terras, ainda pede licença pra existir. Não há nação sem que se devolva o direito ao riso solto, à arte, à inteligência. E é preciso que essas vozes — antes sussurros — passem a soar mais altas que os hinos, que as marchas e os discursos que tentam manter cada um no seu lugar, apagando a negritude, mascarando a desigualdade e amamentando a fantasia de um país melhor sem os garotos do tráfico. Discursos que disfarçam o medo de igualdade, que insistem em manter o pobre na margem, o preto na sombra e o menino do morro ensanguentado no colo da mãe.