sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Tailândia





    Fui indivíduo de poucas distâncias e algumas escuras profundezas. A tal da ansiedade é um desassossego-onça, que vigia o passo e amarra o fôlego em nó de marinheiro. E quem padece desse Sertão-no-Peito — esse bicho-invisível que mastiga a tranquilidade — sabe: a gente é capaz de galopar léguas para o lado de dentro, descer em grotões da alma só pra encontrar sentimentos que viviam ali, acocorados nos joelhos, ou entalados na bolota de espinhos que mora no pomo da garganta. Fica a gente, então, entoldado de horizontes, com o passo amarrado no pé da mesa. Num encantamento de raízes, amamentando o medo de que o mundo lá fora desmanche o pouco que a gente conseguiu amealhar por dentro. É a tentação de achar-se no raso, por medo de que o mar dos outros não tenha fundo, ou de que a gente se desmanche no ar antes mesmo de avistar a terra do estranho.

    Meu passaporte era o silêncio da escrita, sem carimbo de alfândega. E de tanto me escavar por dentro, de tanto palmilhar os corredores de meu próprio juízo, decidi que era tempo de me desfronteirar. Pus-me a viajar para o fora, para o longe-distante, onde o mapa perde o nome e a gente ganha o espanto. E foi um longe tão desmedido que precisei me entregar ao bojo de dois pássaros de ferro. Essas naves de demasia, que roem o tempo em voos de nunca-acabar. Atravessei o céu em duas etapas de cansaço e nuvem, deixando para trás o meu sofá de medos, para ir ver onde é que o sol se esconde quando a gente ainda dorme no Sul.





    Não fui desacompanhado, pois que a solidão é asno-de-unha, coisa que me rala o espírito. É lembrança-braba, dessas que alongam as madrugadas, secando a goela e impedindo que a saliva faça o serviço de molhar a vida. Fui com minha amada que, de tão amada, pode ser porto-manso e redemoinho. É a calma que desassombra os escuros e a ereção que me acende o sangue. É amiga de repartir o silêncio e tesão de me incendiar a pele. Coisa de não se carecer de explicar, porque o amor, sustento e vertigem, é um mistério-mansidão que faz a gente ter coragem de ser dois num mundo de estranhezas.

    Aterramos. E o que nos recebeu não foi um país, foi um estado de espírito. A Tailândia — ou esse antigo e sábio Reino de Sião — abriu-se como flor de lótus, molhando-nos com um orvalho de séculos, guardado calmamente no meio das pétalas. Ali, no coração da Indochina, o mundo deixa de ser linha reta para virar um bordado de águas e reinos. O ar, que lá é grosso de calor e de rezas, não nos pediu licença: abraçou-nos com uma umidade-mãe, um bafo de terra antiga que conta histórias sem precisar de letra. Pisamos num chão que não era de pedra, era de vida acumulada, onde o tempo não corre — ele repousa, suarento e calmo, sob a sombra dos templos.

    A Tailândia não nos recebeu com perguntas, mas com o sorriso-de-ouro de quem já viu impérios caírem e o sol renascer, insistente, no mesmo lugar. Eu, medroso de não aguentar o mundo, vi que o mundo ali era uma casa cheirosa de portas abertas, nos convidando para o banho de sentidos que eu tanto havia evitado. Fomos batizados por um sussurro de seda que vencia o rugido de ferro. Bangkok, onde o trânsito é um rio de metal em fúria, deu-nos o sorriso-primeiro. Um olhar de povo-santo que, de tão límpido, fez o barulho emudecer e as avenidas se abrirem em um vácuo de paz e temperos.

    Riso ofertado sem cobrança, um dar-se sem esconder. E havia naqueles rostos algo de uma infância-antiga, uma ingenuidade tão límpida que não se confundia jamais com tolice. Vi que o riso daquele povo não era coisa de paspalho ou de tolo-crente, dessas que a gente vê em quem é bobo por falta de mundo. Não era a ingenuidade alvar de quem se deixa enganar por não saber o preço das coisas, pela malícia da malandragem. Pelo contrário: era uma clareza que assusta, uma pureza que já teve o couro curtido pelas durezas, mas manteve a alma em estado de cetim. A bobice é um vazio. A coisa deles era um transbordamento.

    Em cada desvão de viela, em cada dobra de beco, o mundo se oferecia em mãos de mulheres-antigas, de senhoras amáveis. Elas, rainhas de seus fogaréus que assustavam panelas, ofertavam um sustento de sabores nunca dantes provados — comida que era um estalo de alegria na boca, vinda do pouco e valendo o todo. O que ali se vendia não era só o trato do corpo; era o derramamento do gesto. O sorriso daquelas senhoras não lhes morava apenas nos lábios, mas escorria pelas pontas dos dedos e se desenhava no ar, numa delicadeza de quem não está apenas entregando um prato, mas repartindo a própria paz. Era a prova de que a beleza não carece de palácio para fazer morada.





    O que era salgado punha-se a sarandear com o doce, numa dança de não se querer parar. E o azedo, que no mundo é faca, ali amaciava na língua, amansado pela maciez-untuosa da gordura, como se cada sabor tivesse feito a sua própria meditação. Era um comer de deuses, na combinação das perfeitas completudes, onde o oposto não briga: se abraça. E por entre galangais, currys, chalotas e o branco dos cocos, enrolei meu espírito num gosto que é puro desabafo. Fechei os olhos quase todas as vezes. Coisa de misticismo. Montanha sagrada que sabe o jeito exato de desenredar os nossos desgostos e fazer a vida fluir de novo, sem tropeço de amargura.





    O povo de lá tem uma demora-mansa para o encontro. A gente, em atropelo de ocidente, solta um 'oi' seco: palavra de um gume só, e acha que já cumpriu o destino. Eles não. Ofertam o “Sawasdee Kráp”, com aquele 'á' final que se estica no ar, tempos e tempos, ganhando corpo de melodia, desenhando um abraço de som. É um cumprimento que não tem pressa de acabar. Uma vocalização-carinho, acolhedora e alegre, que parece dizer que o tempo de Deus é o tempo da gente se reconhecer. Naquela toada amável, o 'oi' da Tailândia vira uma ponte, e a gente atravessa feliz para o lado de lá sem nem sentir.




    O Rio Chao Phraya banha a miséria e a glória com a mesma indiferença sagrada. Navegando por seus canais, a gente esbarra no tutano do existir, no osso da cidade: ali, onde o luxo dos templos de ouro faz sombra em palafitas de madeira-cansada, mora a pobreza que o mundo esqueceu de consertar. Casas que teimam em ficar de pé, quase debruçadas no rio, como se o equilíbrio fosse apenas um milagre de cada manhã, um descuido do abismo. Mas é aí, no sustento desse quase-nada, que a gente leva o maior susto de beleza. Daquelas janelas desvalidas, surge o “Sawasdee Kráp” mais longo, mais profundo e mais musical. O aceno dedicado, ameno e feliz, abana aos barcos que passam boquiabertos. Um sorriso que não vem do que se tem, mas do que se é. Uma gente que, no meio da precariedade e da falta de telha, celebra com delicadeza a abundância do encontro. O encontro, ah o encontro. Talvez seja palavra insuperável ao se falar da Tailândia.






    Encontramos alegria e riso-farto, uma delicadeza de seda. Encontramos sabores que eram delírios, e delírios que tinham gosto de terra. Ali, o sagrado e o profano não se dão as costas; pelo contrário, se enroscam no mesmo verso, compondo um poema de existências que o juízo da gente, no seu costume de separar as águas, não alcança. É um mistério que embaraça o pensar do homem limitado. Esse que vive querendo botar o mundo em gavetas. Bangkok desmancha as cercas que a nossa lógica teimou em levantar. A gente se perde da razão para, enfim, se achar no que é real.




    Bangkok, de tanto ser fervura, foi repouso: uma vastidão que faz tanto barulho por fora, que a gente só consegue ouvir, enfim, o silêncio que Deus esqueceu dentro da gente. E eu acabei por me esquecer de quem eu era. Desprendi-me da ânsia que me servia de sombra e me deixei ficar, baldio de mim, morando apenas no sorriso do povo. Fui ser a gentileza-viva nas mãos das crianças e a elegância suave que habita o corpo dos velhos e dos moleques. Ali, eu já não era o homem que levava medos na mala; eu era apenas um rastro de paz, um sujeito desarmado que, ao perder a própria importância, descobriu a imensidão de estar, enfim, em casa em qualquer lugar.






    Ao voltar, no momento em que os meus pés reconheceram o chão-costume de minha própria moradia, o que era represa em mim desandou em rio. Chorei um choro de nascente, de garoto. Desmanchou-se a alma pra caber de novo no peito. Porque acho que o peito tinha ficado grande demais. Chorei por ter deixado o Sião lá fora, mas principalmente por ter descoberto que ele tinha se mudado com as malas para dentro de mim. No fim do dia tive certeza: meu choro era um “Sawasdee Kráp”. O mais bonito que havia dito. Foi um 'oi' definitivo para mim mesmo. Um cumprimento de quem se reconhece no escuro, e uma saudação para esse homem talvez novo, desarmado e manso, que a Tailândia, em sua sabedoria de seda, sabor e rio, resolveu mandar de volta para cá.