Tailândia
Meu passaporte era o silêncio da escrita, sem carimbo de alfândega. E de tanto me escavar por dentro, de tanto palmilhar os corredores de meu próprio juízo, decidi que era tempo de me desfronteirar. Pus-me a viajar para o fora, para o longe-distante, onde o mapa perde o nome e a gente ganha o espanto. E foi um longe tão desmedido que precisei me entregar ao bojo de dois pássaros de ferro. Essas naves de demasia, que roem o tempo em voos de nunca-acabar. Atravessei o céu em duas etapas de cansaço e nuvem, deixando para trás o meu sofá de medos, para ir ver onde é que o sol se esconde quando a gente ainda dorme no Sul.
Não fui desacompanhado, pois que a solidão é asno-de-unha, coisa que me rala o espírito. É lembrança-braba, dessas que alongam as madrugadas, secando a goela e impedindo que a saliva faça o serviço de molhar a vida. Fui com minha amada que, de tão amada, pode ser porto-manso e redemoinho. É a calma que desassombra os escuros e a ereção que me acende o sangue. É amiga de repartir o silêncio e tesão de me incendiar a pele. Coisa de não se carecer de explicar, porque o amor, sustento e vertigem, é um mistério-mansidão que faz a gente ter coragem de ser dois num mundo de estranhezas.
Aterramos. E o que nos recebeu não foi um país, foi um estado de espírito. A Tailândia — ou esse antigo e sábio Reino de Sião — abriu-se como flor de lótus, molhando-nos com um orvalho de séculos, guardado calmamente no meio das pétalas. Ali, no coração da Indochina, o mundo deixa de ser linha reta para virar um bordado de águas e reinos. O ar, que lá é grosso de calor e de rezas, não nos pediu licença: abraçou-nos com uma umidade-mãe, um bafo de terra antiga que conta histórias sem precisar de letra. Pisamos num chão que não era de pedra, era de vida acumulada, onde o tempo não corre — ele repousa, suarento e calmo, sob a sombra dos templos.
A Tailândia não nos recebeu com perguntas, mas com o sorriso-de-ouro de quem já viu impérios caírem e o sol renascer, insistente, no mesmo lugar. Eu, medroso de não aguentar o mundo, vi que o mundo ali era uma casa cheirosa de portas abertas, nos convidando para o banho de sentidos que eu tanto havia evitado. Fomos batizados por um sussurro de seda que vencia o rugido de ferro. Bangkok, onde o trânsito é um rio de metal em fúria, deu-nos o sorriso-primeiro. Um olhar de povo-santo que, de tão límpido, fez o barulho emudecer e as avenidas se abrirem em um vácuo de paz e temperos.
Riso ofertado sem cobrança, um dar-se sem esconder. E havia naqueles rostos algo de uma infância-antiga, uma ingenuidade tão límpida que não se confundia jamais com tolice. Vi que o riso daquele povo não era coisa de paspalho ou de tolo-crente, dessas que a gente vê em quem é bobo por falta de mundo. Não era a ingenuidade alvar de quem se deixa enganar por não saber o preço das coisas, pela malícia da malandragem. Pelo contrário: era uma clareza que assusta, uma pureza que já teve o couro curtido pelas durezas, mas manteve a alma em estado de cetim. A bobice é um vazio. A coisa deles era um transbordamento.
Em cada desvão de viela, em cada dobra de beco, o mundo se oferecia em mãos de mulheres-antigas, de senhoras amáveis. Elas, rainhas de seus fogaréus que assustavam panelas, ofertavam um sustento de sabores nunca dantes provados — comida que era um estalo de alegria na boca, vinda do pouco e valendo o todo. O que ali se vendia não era só o trato do corpo; era o derramamento do gesto. O sorriso daquelas senhoras não lhes morava apenas nos lábios, mas escorria pelas pontas dos dedos e se desenhava no ar, numa delicadeza de quem não está apenas entregando um prato, mas repartindo a própria paz. Era a prova de que a beleza não carece de palácio para fazer morada.
O que era salgado punha-se a sarandear com o doce, numa dança de não se querer parar. E o azedo, que no mundo é faca, ali amaciava na língua, amansado pela maciez-untuosa da gordura, como se cada sabor tivesse feito a sua própria meditação. Era um comer de deuses, na combinação das perfeitas completudes, onde o oposto não briga: se abraça. E por entre galangais, currys, chalotas e o branco dos cocos, enrolei meu espírito num gosto que é puro desabafo. Fechei os olhos quase todas as vezes. Coisa de misticismo. Montanha sagrada que sabe o jeito exato de desenredar os nossos desgostos e fazer a vida fluir de novo, sem tropeço de amargura.
O povo de lá tem uma demora-mansa para o encontro. A gente, em atropelo de ocidente, solta um 'oi' seco: palavra de um gume só, e acha que já cumpriu o destino. Eles não. Ofertam o “Sawasdee Kráp”, com aquele 'á' final que se estica no ar, tempos e tempos, ganhando corpo de melodia, desenhando um abraço de som. É um cumprimento que não tem pressa de acabar. Uma vocalização-carinho, acolhedora e alegre, que parece dizer que o tempo de Deus é o tempo da gente se reconhecer. Naquela toada amável, o 'oi' da Tailândia vira uma ponte, e a gente atravessa feliz para o lado de lá sem nem sentir.
O Rio Chao Phraya banha a miséria e a glória com a mesma indiferença sagrada. Navegando por seus canais, a gente esbarra no tutano do existir, no osso da cidade: ali, onde o luxo dos templos de ouro faz sombra em palafitas de madeira-cansada, mora a pobreza que o mundo esqueceu de consertar. Casas que teimam em ficar de pé, quase debruçadas no rio, como se o equilíbrio fosse apenas um milagre de cada manhã, um descuido do abismo. Mas é aí, no sustento desse quase-nada, que a gente leva o maior susto de beleza. Daquelas janelas desvalidas, surge o “Sawasdee Kráp” mais longo, mais profundo e mais musical. O aceno dedicado, ameno e feliz, abana aos barcos que passam boquiabertos. Um sorriso que não vem do que se tem, mas do que se é. Uma gente que, no meio da precariedade e da falta de telha, celebra com delicadeza a abundância do encontro. O encontro, ah o encontro. Talvez seja palavra insuperável ao se falar da Tailândia.
Encontramos alegria e riso-farto, uma delicadeza de seda. Encontramos sabores que eram delírios, e delírios que tinham gosto de terra. Ali, o sagrado e o profano não se dão as costas; pelo contrário, se enroscam no mesmo verso, compondo um poema de existências que o juízo da gente, no seu costume de separar as águas, não alcança. É um mistério que embaraça o pensar do homem limitado. Esse que vive querendo botar o mundo em gavetas. Bangkok desmancha as cercas que a nossa lógica teimou em levantar. A gente se perde da razão para, enfim, se achar no que é real.
Bangkok, de tanto ser fervura, foi repouso: uma vastidão que faz tanto barulho por fora, que a gente só consegue ouvir, enfim, o silêncio que Deus esqueceu dentro da gente. E eu acabei por me esquecer de quem eu era. Desprendi-me da ânsia que me servia de sombra e me deixei ficar, baldio de mim, morando apenas no sorriso do povo. Fui ser a gentileza-viva nas mãos das crianças e a elegância suave que habita o corpo dos velhos e dos moleques. Ali, eu já não era o homem que levava medos na mala; eu era apenas um rastro de paz, um sujeito desarmado que, ao perder a própria importância, descobriu a imensidão de estar, enfim, em casa em qualquer lugar.
Ao voltar, no momento em que os meus pés reconheceram o chão-costume de minha própria moradia, o que era represa em mim desandou em rio. Chorei um choro de nascente, de garoto. Desmanchou-se a alma pra caber de novo no peito. Porque acho que o peito tinha ficado grande demais. Chorei por ter deixado o Sião lá fora, mas principalmente por ter descoberto que ele tinha se mudado com as malas para dentro de mim. No fim do dia tive certeza: meu choro era um “Sawasdee Kráp”. O mais bonito que havia dito. Foi um 'oi' definitivo para mim mesmo. Um cumprimento de quem se reconhece no escuro, e uma saudação para esse homem talvez novo, desarmado e manso, que a Tailândia, em sua sabedoria de seda, sabor e rio, resolveu mandar de volta para cá.










