sexta-feira, fevereiro 27, 2026
quinta-feira, dezembro 18, 2025
ESPERMOGRAMA
quinta-feira, novembro 27, 2025
A Democracia do Figurino
Jonas Lewis
domingo, novembro 16, 2025
O livro MENOS vendido da Feira do Livro
Não vendi um único exemplar na Feira do Livro. Nenhum leitor, desses atentos, apaixonados pelas letras, curiosos de parágrafos alheios — interrompeu o passo diante da banca e pensou, com súbita convicção: “é este”. Ninguém estendeu a mão, ninguém levou o livro para casa, ninguém o abriu como quem encontra um pequeno incêndio para devorar antes de dormir.
E, no entanto, foi justamente o silêncio desse esquecimento que me acendeu uma antiga pergunta: por que escrevo? Por que voltaria eu à mesa, ao caderno, ao brilho teimoso da chapa em branco? O que me faria insistir, depois de ver meu livro atravessar a feira como atravessa um fantasma — presente, mas não tocado?
Se para Kafka, o solitário artífice do desamparo, escrever era o único modo de existir em silêncio, e de estar sozinho sem afligir-se da solidão, para o velho Saramago o ato da escrita já nasce voltado para fora — para alguém que há de completar a travessia: “o que escrevo sempre é pergunta; a resposta cabe ao leitor.”
A mim, fazer literatura é como quase tudo que há no mundo: arroz e feijão. Chuva e seca, o sal da lágrima e a doçura do riso, sombra imensa e luz miúda. Apolíneo e Dionisíaco, esse par de opostos tão poderosos na filosofia ocidental. O ato de sangrar-se, como em remédio, esvaziando nas orações um tanto dos traumas, das esperanças e das histórias. A literatura nasce antes — naquele lugar secreto em que uma frase pede outra, em que uma imagem insiste, em que a mão, quase sem pedir licença, volta a procurar a palavra. É isso, e é outro. Como talvez tenha reputado, fortuitamente, Saramago.
Escrever é, também, um reincidente exercício narcísico: o sujeito se dobra sobre si mesmo, alisa a frase como quem ajeita o próprio rosto na água, escolhe e recolhe palavras, troca as que falham, aprimora as que brilham — tudo para ver surgir, no texto, um eu que talvez nem exista fora dele. É vaidade tímida, quase envergonhada: a gente talha o texto para si, mas deixa, num sem querer deliberado, umas frestas abertas — uma porta delicada de claridade — por onde o outro possa entrar. Porque o escritor, no fundo, anseia essa presença quieta que vira a página no seu compasso, respira junto com a narrativa e, num gesto que ninguém vê, completa o sentido que jamais conseguiria sozinho.
Escrever é bicho de duas cabeças. Como tudo que é bicho, aliás. De primeiro, esse derramar para dentro, um exercício de cura e de espelho: a mão cavoucando o próprio peito, ajeitando palavras como quem organiza um quarto em desordem. É curativo, válvula, respiração. E depois, a intenção menos confessável: a premência de ser lido, quase compreendido, e amado até. Porque o escritor carrega em si um tipo terno de mau-caratismo, como o que revela um sedutor motivado, diante do ser passível de ser provocado, embevecido e capturado. Afinal, seduzir alguém é um ato corrupto e cínico que a muitos desperta imenso regozijo. O sedutor é um crápula, um perigoso e encantador trapaceiro.
E talvez seja isso que reste, no fim das contas: essa perversa delicadeza de quem escreve tentando fisgar um coração alheio, mesmo quando falha miseravelmente na empreitada. Ou a vontade de livrar o que já não cabe no peito, a urgência de sangrar o verbo que lateja escondido. Porque não vendi um único exemplar na Feira do Livro — e, ainda assim, voltei para casa com a vontade antiga intacta, teimando em mim como febre boa.
Escrevo porque as palavras me empurram, me atravessam e me pedem passagem, como o T1 acelerando na Ipiranga. Escrevo para fazer nascer de mim o que, numa conversa, morreria antes da primeira sílaba. Escrevo porque certas coisas não sabem sair pela boca: precisam da lenta gestação das frases, da respiração profunda do silêncio e do abrigo de uma página que não se assusta com o excesso. Escrevo para sobreviver às marés que me submergem. Escrevo porque há mundos que só existem quando eu os digo. E, se eu não os disser, eles me devoram. Escrevo para dar destino ao que me sobra, para dar casa ao que me falta. Escrevo porque, no fundo, a palavra é o único modo que tenho de transformar o que me dói em claridade, e o que me ilumina em permanência. E talvez seja isso — só isso e tudo isso — que me faça tentar de novo: outro livro, outra feira, outro fracasso; essa teimosia de continuar parindo sentidos onde a vida, sozinha, não daria nenhum.
Jonas Lewis
domingo, novembro 02, 2025
Mata mais que bala de "revórver".
quarta-feira, abril 02, 2025
Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo - Uma Reflexão Festiva
Há quem trate o mundo como recinto ordinário, previsível. Há quem o diga como compasso exato, artificiosa coreografia aprendida, domesticada e repetida. Vestir-se com os tecidos da norma, caminhar nos retilíneos traços dos dias comuns e falar o que se espera, sorrindo no tempo certo, e calando quando o silêncio impõe sua regra austera. Boca obediente, comportada. Olhos decentes, empenhados, corpo arrumado, talhado em dobra e obediência — que aprendeu, cedo demais, a não incomodar.
Mas há aqueles — felizes, dizia Erasmo de Roterdã — que não se curvam a essa régua invisível. Aqueles em quem a lógica do mundo hesita, treme e se embaralha. Foucault diria: são os que habitam as margens do discurso, os que dançam fora do compasso. Não por desvio, mas por outra geometria — por outras formas de ver, de sentir, de ser.
Hoje é dois de abril. Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Talvez o dia perfeito para não caber. Para não explicar, nem reduzir. Para não alinhar a diferença à cadência das definições. Talvez seja o dia de celebrar o drible. O tropeço que vira dança. A palavra que não chega, mas ressoa. O gesto que escapa — e, por isso, ilumina.
Esqueçamos as datas, calendários e cerimônias, posto que são invenções do mundo comum — essa fábrica de moldes que forja réguas para medir o que escapa, cria nomes para conter o indizível e sorrisos para fingir a paz. Um mundo que inventa calendário para domesticar o tempo, etiquetas para disfarçar o estranhamento e a rotina para apagar o espanto. É um mundo que teme o desvio, que cochicha diante do silêncio, que apressa o passo de quem ousa parar — de quem se recusa a rimar a vida com pressa. É o mundo dos manuais — onde tudo tem de ter uso, função, resposta, missão. Onde os corpos devem andar em fila, e as almas não podem tropeçar em sonho.
Hoje e, ao menos hoje, deixemos o mundo comum cochilando em sua lógica exata — e celebremos a festa sem roteiro. A fantasia que se repete com brilho refeito, dia após dia, na rotina mágica do incomum. Hoje, cantemos o Autismo e suas encanterias. Suas alquimias silenciosas e suas delicadezas que acendem estrelas no meio do dia. Falemos do jeito com que tocam o invisível e rasgam a cortina pesada da normalidade. Porque vivem outro compasso — mais profundo, mais sincero, mais inteiro. Mostram que o real não é trilho, é espiral. E que a vida não é linha reta, mas rio que se curva, serpenteia e canta seus próprios desvios.
Celebremos a sorte de quem toca nesse mundo, porque, mesmo de raspão, algo em nós também se desfaz e se refaz: desfaz-se o casco duro da pressa, o hábito de olhar sem ver e a urgência de nomear as coisas. Porque as coisas, no fundo, são só isso: coisas. Mistérios com forma, silêncios em cor, dissonâncias que transformam o acorde comum em jazz — e não mais melodia dócil, mas vertigem sonora, onde cada nota intrusa esbarra em sentimento e ressoa como quem revela segredos extraordinários ao ouvido do tempo.
E o autismo também é isso: é a quebra que faz nascer o encanto, o desvio que pulsa num ritmo verdadeiro. Porque o autismo não anda por onde se espera — ele borda pelas margens, dança nas bordas do mapa, e é ali, fora da rota traçada, que o mundo revela suas verdades mais guardadas. É na vereda, no desencaminho, onde o tempo não é tirano — é respiro. O gesto não é desempenho — é linguagem.
O autismo nos sussurra que o mundo não é plano, nem reto, nem pronto. Que por trás das lisas fachadas da rotina há dobras escondidas, frestas por onde escapa o vento de outro tempo, com cheiro de saudade. O chão, que parecia firme, revela textura secreta, terra molhada. A gente aprende a enxergar com o olho torto, o ouvido oblíquo, e a silenciar o barulho do mundo para ouvir o que não se diz em voz alta. De que segredos riem as conchas quando se perdem da maré?
É no autismo que a vida desaprende o dever e reaprende o deslumbramento. Como quem se perde do mundo e encontra, enfim, o encantamento. Celebremos, portanto, a maravilha de não caber. O afeto que anda em patas leves, se esconde como tatu-bola e ressurge, inteiro, num gesto mínimo. Celebremos o tempo que se alonga, o olhar que demora, o amor que não se explica, mas se deixa entrever — como vaga-lume em noite escura. Festejemos o respeito e a fascinação de escutarmos com a pele, de enxergarmos com a respiração e de aprendermos com aqueles que não marcham no passo certo das multidões, mas dançam, livres, imunes e, principalmente, honestos.
Exaltemos aqueles que seguem trilhas inventadas no musgo, nos caminhos que só os bichos mágicos conhecem. Aqueles que conversam com o mundo em linguagem de vento e pedra, que reinventam a verdade utilizando os fios invisíveis do gesto. Celebremos o Autismo, e reconheçamos, por fim, que o autismo não é ausência — é presença em outra frequência. E quem se afina com ela, ainda que por um instante, descobre que o mundo é mais vasto que o mapa, mais fundo que o costume e mais bonito do que o nome das coisas pode alcançar. Há beleza demais nos cantos onde ninguém costuma olhar.
quarta-feira, março 26, 2025
Nem Todo Grito é Festa
O futebol não é só paixão nacional. Muito além das fronteiras do Trópico das Contradições, conhecido como Brasil, o futebol é um fenômeno sedutor, político e encantador. Um espetáculo coletivo que celebra a estratégia, o corpo humano, a arte e o improvável. Suor, lágrimas, sorrisos, glórias, encantamentos e decepções. O futebol foge às rígidas lógicas da razão e, portanto, vez por outra, insubordina-se às análises acadêmicas, aos diagnósticos políticos e até ao importante espelho social no qual todos nós deveríamos, habitualmente, ser capazes de enxergar nossas próprias faces.
O que nos move, usualmente nos revela. O que nos empolga, evidencia-nos. É celebração e descoberta, euforia e confissão. Não há o que a disposição da embriaguez não exponha. Quando escorre a alegria pelos poros e a voz junta-se ao coro da arquibancada, deixamos escapar o que, no sóbrio e solitário silêncio, talvez ficasse guardado. Na catarse do gol e na comunhão do grito, emergem grosseiras verdades, e tendências mal resolvidas. O futebol despe-nos como detector de metais. Ignorar os seus aspectos políticos, as suas exclusões, falhas e contradições, é perder a chance de contemplar o Brasil de corpo inteiro. Um país que dança, canta, vibra e se emociona, mas que dissimula e se cala diante do ódio e da violência travestida de paixão.
Nas torcidas cariocas, quando o futebol ainda era mais poesia do que negócio, era comum escutar sambas-enredo na voz majestosa da arquibancada. “Aquarela Brasileira”, nascida em 1964 no Império Serrano, ecoava durante a partida no compasso do surdo e do tamborim. O estádio deixara de ser campo de batalha e virava desfile: um cortejo popular onde o grito de gol se misturava à cadência do samba. “Kizomba , a Festa da Raça”, talvez o mais emblemático samba dos estádios, principalmente entre as torcidas de Vasco e Flamengo, ecoou sua força política e social durante as partidas. Campeão em 1988, o marcante samba da Vila Isabel assentou Zumbi dos Palmares na boca do povo. Pela primeira vez em muito tempo, a memória da resistência negra não era sussurrada nos cantos esquecidos, mas cantada em fulgente coro por milhares de torcedores.
Odes ao próprio time, brados que estimulavam o grupo de jogadores a honrar as cores que vestiam, reclamações de todo lado e até injúrias momentâneas ao árbitro, que vestido como magistrado, deixava de marcar o inequívoco pênalti a favor. Há poesia em cada gesto da boa torcida. Sempre houve. Levar o santo pro estádio, beijar o escudo antes de cada pontapé, agarrar-se na guia do pescoço, e fechar os olhos para ouvir o hino como se fosse serenata de infância. Tem criança que decora a escalação como cantiga de roda e tem velho que assiste ao jogo como quem reencontra um amor de juventude. Que vê nas cores de seu time, e na possível conquista de um troféu, um dos últimos e valiosos motivos para seguir respirando.
Onde deixamos o fascínio? Em que poeirenta gaveta esquecemos o futebol? Quando deixamos de lado a paixão pelo time e pelo jogo e passamos a entoar ofensas, a vestir o ódio como manto e a violentar o outro com o pretexto de torcer? Onde foi que perdemos o fio do tamborim, o coro do samba-enredo, o batuque que embalava a esperança? O futebol, que já foi roda de criança, ladainha de arquibancada e procissão de alegria, pouco a pouco, se endureceu. Ganhou uma camada robusta de cimento frio. Aos poucos, deixou de ser do povo. Afastou-se do barro, da laje, do radinho de pilha, e passou a caber somente no bolso dos ricos. Os estádios se tornaram arenas esterilizadas, sem espaço pra farofa, batuque ou chinelo de dedo. O ingresso virou produto de luxo, a torcida virou público-alvo, e o torcedor popular foi empurrado pra fora. Fisicamente e simbolicamente. Elitizando o acesso ao jogo, a festa coletiva se enfraquece. O carnaval vira remanso e o consumo solitário enraiza-se. O canto vira performance e a paixão vira posse. O futebol deixa de ser, então, a vivência comunitária para virar espetáculo exclusivo, e num ambiente onde tudo é mercadoria, até o grito se esvazia. Ou se radicaliza. Onde não há espaço pro brincar, sobra espaço pro atacar.
Nos últimos dias, o que se ouviu não foram os cantos, mas as rajadas. Palavras duras, carregadas de desprezo, de violência, e de uma virilidade oca e tóxica. Dirigentes, jogadores e presidentes, indelicados e desprovidos de qualquer inspiração política, soltam palavras simbólicas, figuradas e metafóricas, carregadas de violência, e disparadas com a naturalidade de quem esquece — ou finge esquecer — que somos animais simbólicos. E que, por isso, as palavras nos moldam, nos movem, nos convocam e encorajam. Aprende-se a odiar, como se aprende a bater escanteio. Aprende-se a violentar com a mesma facilidade com que se decora um cântico racista de torcida. A violência simbólica é a antessala da violência física. Quem aplaude o discurso violento, do sofá de casa, justifica o gesto atroz. Garrafadas, apedrejamentos, empurrões e palavras pontiagudas, são os cupins do futebol. Cochonilhas e pulgões que sugam a seiva e enfraquecem a planta, matando-a dia após dia. São impertinentes como ferrugem, nocivos como carrapatos e fatais como vírus.
Onde andam os sambas? As famílias? Onde anda o povo que ninguém vê? Hei de escutar um teimoso e pacífico tamborim soar entre as arquibancadas? Hei de ver uma garota, de chinelo gasto e camisa larga, gritar pelo seu time com o mesmo fervor de quem reza? Eu espero que sim, porque o futebol ainda pulsa, e não deve parar de pulsar, como o pujante surdo na avenida. Ainda há, no Brasil profundo, torcedores que resistem como flores em rachadura de parede. E talvez, se escutarmos com atenção, possamos ouvir novamente o samba. Talvez ele ainda esteja ali, quieto, entre um grito e outro. Esperando que o futebol volte a ser o que sempre deveria ter sido: encontro, invenção e pertencimento. Arte, simplesmente.
Jonas Lewis da Costa Franco
sábado, março 08, 2025
A Felicidade é Azul , Preto e Branca
O que explica a felicidade? O que esclarece-nos a serventia do prazer, a função do contentamento? Vinte e seis séculos de filosofia e talvez não tenhamos chegado perto da resposta. Não há resoluções no pensamento metafísico, tampouco explicações para tão herméticos questionamentos. A felicidade é coisa emaranhada, equívoca, nebulosa. Atrapalha a lógica, desconcerta as coerências, desnorteia as dialéticas e, assim como tudo que é extraordinário, admiravelmente arremessa-nos contradições e absurdos. Como podemos não saber o que a felicidade é, e ao mesmo tempo, saber exatamente quando fomos felizes? Como é possível não compreendermos a felicidade, mas reconhecermos com precisão os momentos em que a vivemos?
Fui feliz na casa de minha avó. Da janela que cortava a alta sala aconchegante, eu enxergava os refletores do Estádio Olímpico e boa parte de suas arquibancadas. Um pouco mais acima, nas colinas da Medianeira, firmava-se a casa onde minha avó fincou raízes, criou filhos, viu nascer um abacateiro, leu os jornais e bordou sua vida em dias inteiros de afeto e silêncio. De lá eu escutava o incessante burburinho das ruas que rondavam o Monumental, e o estrondo festivo do gol, que soava um segundo antes do rádio contar o fato. Havia a balbúrdia dos ataques, e o silêncio das defesas, assim como a algazarra dos portões que vazavam como alto falante, a batucada persistente da torcida.
Para mim, pequeno e ainda intimidado pelo imenso pátio de minha avó, o estádio era coisa colossal, como um Coliseu recente e vanguardista, rodeado de ambulantes, torcedores, flanelinhas e homens eufóricos. Ir à casa da Teixeira de Carvalho, era ir ao Grêmio. Talvez pela proximidade e talvez pela felicidade. Sopas amarelas, caldas de açúcar e papos de anjo. Enredos, primos e peripécias. Que sabor nectarino tinha a vida perto do tricolor da Azenha.
Talvez o mistério seja esse. Disso já não desconfio. Parece-me que pouco importa o que é felicidade, senão descobrir onde a realidade esconde a sua doçura. Aviões, pirilampos, montanhas ou sapos, há de se aprender que o estampido da máquina de escrever, os refletores, a velha cadeira de balanço e as tardes de Grêmio, são os abraços do tempo, os afagos que aliviam a certeza inclemente de nossa fraqueza.
Há quem não os perceba. Nem os abraços, nem as doçuras. Há quem não enxergue que a luz dos refletores anunciando o início da partida, não era luz. Era lembrança. Há quem desvie o olhar quando rola a pelota, e não encontre serventia nessa dança violenta entre os homens e a esfera. Onze de cada lado, guerreando sem espadas, lanças ou katanas, num verdoso tablado onde a força se curva à delicadeza. Onde a brutalidade permeia os hiatos da lucidez, fazendo arte. O futebol não tem utilidade. É um exercício delicado e sutil sobre a percepção simbólica da vida. E eis a sua proficiência.
O futebol não se joga com as mãos. A superestimada parte final dos membros superiores, providas de carpos, metacarpos e falanges, que há tanto desgastamos em tudo o que se pode imaginar do cotidiano prático, aqui não governa coisa alguma. É como se o futebol dissesse-nos que, no chão, estão as coisas valiosas. Que aos pés devemos atentar veneração, e que ali descobriu a doçura que lhe fazia feliz. Como descobri no Grêmio, em minha avó, e em sua casa. Como descobri no azul, no preto e no branco.
Que faz um menino escolher as cores? Que tipo de dança graciosa e cheia de fúria, fugida dos teatros e encenações, apodera-se da fantasia de um lépido garoto? Era o suor, o silêncio, a dor pungente da derrota, o churrasquinho magoado de uma semifinal perdida, a mágoa enfurecida de um gol anulado. O Grêmio me fazia feliz. A vitória tricolor era, acima de tudo, um ato de beleza. Como no enlevo arrebatador de um quadro de Basquiat, ou na impactante comoção frente às missas de Bach, eu havia aprendido. A felicidade atravessa-nos. É vertigem e não razão. É impulso e não matemática. O Grêmio havia me ensinado a extrapolar, e a perceber felicidade, na desordem inexplicável da paixão. O Grêmio tinha-me para sempre. Como um tolo. Como noite que pertence ao céu, mesmo que não lhe ocupe todo tempo.
Foram copas, ligas, torneios e disputas. Vinham de longe pra afugentar o Grêmio, e o Grêmio dava-lhes reprimendas ferozes, com cabeçadas meticulosas, chutes acurados e ríspidos encontrões. Por vezes castigavam-nos, e magoavam a tarde, fazendo-me subir a lomba, de volta pra casa de minha avó, cabisbaixo e doído. O Grêmio era êxtase e desalento. O Grêmio era grito e remanso. Festa e luto, como a rotina. Ascensão e desmoronamento. O abraço e a solidão.
Quem sabe o Grêmio tenha me ensinado sobre a vida. Talvez no cimento grisalho do Estádio Olímpico, eu tenha percebido que a graça da conquista, é o percurso. E que não importam as amarguras, quando se fantasia a próxima vitória. Não importa a injustiça quando a gente culpa o juíz, o centroavante ou o goleiro adversário. É uma forma sensata de insensatez, que prepara o corpo e a alma para o confronto do ano que vem. Para o troféu que ainda não veio.
O Grêmio é mesmo estranho. Como a felicidade, feito desse desequilíbrio perfeito. Desse salto entre o êxtase e a queda, entre a plenitude e o vazio. Como poesia, como a contradição que pinta a beleza. O Grêmio é uma paixão febril. Toma-nos sem aviso, sem anúncio ou advertência e faz vibrar o peito, como a arquibancada. Faz a gente pular feito bicho, rezar pra santo desconhecido e ver-se como um estúpido, sofrendo em frente ao acaso de uma batalha desportiva. Sofrer em frente ao acaso. Ignorar as certezas da lógica. Amar os apertos, os contratempos e metamorfoses. O Grêmio me ensinou a amar. Não a convicção de sua vitória, mas a firmeza de minha obstinação. A graça de minha doença, e o encanto de saber-se pronto, para a queda e para a glória. O Grêmio me disse, desde muito cedo, que o futebol é mais importante que o mundo.
quarta-feira, maio 08, 2024
Porto Alegre Sitiada
A saudade, às vezes, bate como bordoada. É como um espasmo que enverga-nos a relembrar histórias, e reviver as peripécias. A única dipirona possível pra amenizar a dor. Há mais de um ano meu avô deixou Porto Alegre. De forma definitiva, ferrenha e inabalável. Encontrou a morte e, só assim, conseguiu separar-se definitivamente das esquinas abarrotadas do Centro, do corpo azul dourado do Menino Deus e do velho e imenso Guaíba.
A mim nunca houve concreta separação entre Sérgio da Costa Franco (o meu avô), e a cidade. Parecia que as vielas, dutos e avenidas, eram as pujantes veias do velho, que bombeavam sangue enquanto fazia destemidas caminhadas pelo Parque Marinha. Conhecera minha avó na Praia de Ipanema, e costumava gabar-se de ser uma Ipanema gaúcha, porto-alegrense, e não aquela dos cartões postais eternizados por Tom e Vinícius, que fantasia um fúlgido e fascinante Rio de Janeiro.
Meu avô era um apaixonado, um estudioso, e em quase mil verbetes, registrou com inaudita perícia a evolução dos bairros, praças e ruas de Porto Alegre, em seu afamado Guia Histórico. Monumentos, instituições, recantos pitorescos e personagens ilustres, ao velho avô, eram como íntimos companheiros do velho restaurante Naval. Dedicou-se a pesquisar e amar a cidade. Viveu cada naco de calçada do Centro Histórico, e pôs em suas crônicas, publicadas diariamente no Correio do Povo, o cotidiano recorrente, habitual e fabuloso de cada episódio Porto-Alegrense.
Que bom que meu avô não anda por aqui. Escondido, talvez, a lhe perpetuar a fama de durão e empedernido, choraria. Assim como timidamente chorou com os versos de Neruda, não lhe seria cabível enxergar a cidade do jeito que está. Parece-me que essa tragédia lhe seria inaceitável. De certo evocaria seu antigo desejo, de que cidade voltasse a parecer com a Porto Alegre de 1935, que ostentava resquícios de um período colonial e transformava-se aceleradamente sob competentes administrações de Otávio Rocha e Alberto Bins.
Estamos debaixo d`água, e não há literatura possível. Uma crônica amarga do que há dias, parecia normal, estampa o noticiário e monopoliza a prosa do povo. Botes, barcos, máquinas e escuridão. Aproximamo-nos da morte e da catástrofe de maneira dramática, fazendo com que essa proximidade nos acostume, aos poucos, com a tragédia. Um péssimo costume. Nenhuma foto ensolarada na Orla, nenhuma loja anunciando seus produtos na Rua da Praia. Sem grenais, festivais, mates compartidos, peixes embalados nas peixarias do Mercado.
A cidade chama-se angústia. Solidão. Aos que perderam os sofás, aparelhos de TV, mesas e fogões, aflição. Aos que perderam algum avô, um novo namorado, uma velha mãe, desespero. O pânico financeiro e a revolta com Deus. Talvez, ao menos, o alento de saber que o povo anda pelas ruas. Povo aguerrido. Alagados, encharcados e corajosos, na busca de um braço perdido, que possa agarrar os remos e vassouras, apaziguando um pouco o medo na segurança de uma canoa improvisada.
De que altar choraremos juntos a meu avô, se não podemos sequer acender as velas? Estão em falta, nas frívolas prateleiras vazias do supermercado, que assim como num filme americano, parece ter sido invadido e saqueado violentamente nesse cenário apocalíptico. Quando vamos nos encontrar de novo? Quando havemos de amar o rio, outra vez? O pobre, poluto e adulterado, talvez tente buscar o que lhe roubamos desde sempre. Talvez esteja em revolução, insurgindo contra os manhosos homens públicos, que ignoram a sua magnitude pelos indecoros do capital.
Meu avô não acreditava em Deus. Jamais lhe foi verossímil. Era um homem dos fatos, documentos, títulos, certidões e atestados. E mesmo que a literatura lhe desse vasta destreza espiritual, dizia-se ateu incorrigível. Mas eu consigo ver o velho, tímido e correto, dedicado e apaixonado, encostar no homem lá de cima, seja ele quem for, e pedir-lhe alguma trégua. Que cesse o sofrimento desse povo, que pare as chuvas e que nos dê sabedoria, destreza e calma para voltar. Que controle as nuvens e os ventos, mas que, acima de tudo, dê-nos delicadeza, coragem e determinação para sorrir de novo.
sexta-feira, abril 14, 2023
A Nau dos Insensatos: Morte e Massacre nas Escolas.
Publicado em 1494, o poema Navis Stultifera, de Sebastian Brant, retratava a embarcação que, atolada de inconsequentes, glutões, doidivanos, preguiçosos e avarentos, dirigia-se rigorosamente a uma ilha chamada “Insensatez”. Foucault, na História da Loucura, retoma a imagem da nau, e a alegoriza para descrever o macabro itinerário dos indivíduos indesejados na Idade Média. Dos manicômios, hospitais e leprosários, essas criaturas eram constantemente segregadas do convívio social. Feiticeiras, hereges, vadios e embriagados, vagariam portanto sobre as águas, desaparecidos. A loucura, que para Foucault, não seria unicamente uma ilustração histórica, e sim, substancialmente uma experiência originária e essencial, que a razão, a compreensão e a realidade, ao invés de descobrir, ocultou, omitiu, pensou ter calado e dominado. Mas jamais a destruiu completamente, deixando-a perigosa e enfurecida.
Denunciada por Nietzsche, a Sociedade Socrática, amoriscada e fascinada pelo espírito científico e racional, fez-nos espectadores do nascimento da tragédia, que por ora, degustaria a repressão e o sufocamento que apressadamente viria através dos peritos e teóricos da lógica e da racionalização.
Se por um lado somos cotidianamente delirantes, imprudentes e imoderados, por outro amargamos aprisionados a condição de reféns da insensatez, da insanidade. O absurdo é arte, e dele nada podemos prever. Não há prenúncio ou conjecturas. Nada foi subtraído ou vandalizado. Não há formação de quadrilha, planos, estelionatos ou golpes. Estamos diante de um evidente e inteligível sintoma de nossa própria liberdade, como fugitivos das amarras morais e lúcidas. A expressão simbólica dos conflitos e traumas individuais, ganha potência bélica com o consentimento da massa.
A sociedade das curtidas e views capta impiedosamente os que buscam o reconhecimento. Do ressentimento, da invisibilidade e do tédio, nascem os indômitos e hediondos, que arremessam o próprio corpo, junto da alma, em um compreensível abismo de fúria e disparate. A polícia não os pode deter. O exército não os pode bloquear, tampouco as políticas públicas têm comando suficiente para encostar na consciência e no ímpeto.
A banalidade do mal há de sentar à mesa, e depois de alguns anos em que permitimos, como corpo social, o discurso beligerante, zangado e odioso, essa banalidade há de ser nosso alimento. Estamos com o prato lotado, a faca e o queijo na mão. Proselitismo Marxista, guerra cultural e inúmeros pretextos desatinados e levianos, confundem e congregam os devotos, que dispostos a sacrificar seu anonimato, aniquilam. A si, ao outro e à coerência.
Não há insensatez trancafiada em uma embarcação. Nem barco capaz de carregar o desvario dos lares. A extravagância foi celebrada, e trará suas instalações, em escolas, creches, cinemas e circos. A exteriorização da crueldade, quando acompanhada de fuzis, pistolas, facas e espadas, nos servirá catástrofes, maiores do que nossos próprios traumas e conflitos psicanalíticos. E mesmo que o jornalismo pratique sua ética dissimulada, evitando a propaganda do assassino, o medo de nossa própria capacidade trancafiará os exércitos de triviais em suas casas. No quarto ao lado, a solidão pode fabricar uma bomba. A solidão sempre fabricou bombas. O abandono a que nem mais prestamos atenção, mobiliza as massas ao absurdo fantástico, e de lá saem estrelas gloriosas. Quem sabe um dia nosso filho vire uma série da Netflix? Resta decidir se preferimos como vítima, ou facínora. Ao menos cairia no mar de fogo, no circulo mais baixo do inferno.
Como disse Jack, o personagem serial killer do longa The house that Jack built, escrito e dirigido por Lars Von Trier:
- "Se você sente que não é suficiente para o mundo, então invente mentiras e torne-se uma lenda."
Simplório seria atribuir o jorro de violência aos quinhões direitistas de uma política militar e truculenta. É nítido que desde o integralismo brasileiro, emaranhamos à energia do país, um entusiasmo extremista, ainda caótico e arrevesado, que com a eleição e a divinização de um estúpido “messias”, ganhou robustez e agigantou a massa de maníacos incoerentes, descontrolados e antidemocráticos. A velha concepção hitleriana de “sociedade em decadência”, resguarda os destruidores e terroristas, como se paladinos, intrépidos e heróis, enfrentassem a coletividade doente. Essa dimensão multifacetada, alia o crescimento da extrema direita à excruciante solidão dos corpos. O indivíduo percebe, então, que sua apetência é o extermínio dos agentes construtores dessa sociedade que o humilha, inclusive politicamente, com a insegurança da democracia.
Quem poderá controlar os desejos internos? Quem poderia dizer-lhes que o mundo é quem manda, e não o contrário? O horror é como o tesão, a tara, a sigilosa perversão que pertence somente ao que perverte. Nem a polícia, nem o presidente. Nem o jornal, nem a ONU. Nem a própria moral pode desmanchar a depravação ou frear a mentira que contamos todos os dias aos nossos próprios ouvidos. Leve seus filhos à escola, e reze. Principalmente por seus coleguinhas.
quinta-feira, março 23, 2023
BBB - Se pudesse escolher entre o bem e o mal
A conquista da riqueza e do poder. Eis o impulso primordial que nos faz frequentes ocupantes nos cargos de escravocratas e tiranos. Pérsia, Grécia, Roma e sem desvios, rigorosamente no Brasil, onde longínquos de qualquer abolição, ainda perpetuamos a submissão degradante, vexatória e humilhante. No BBB, a importunação sexual e o racismo, são estruturas essenciais para que se compreenda um fenômeno recente, fresco e contemporâneo.
O nome do programa, mais do que diretamente insinua a estrutura de controle futurista e totalitária criada por George Orwell, em “1984”. O “Big Brother” da TV, com o mesmo nome da governança presente na criação literária, forja de maneira perversa uma realidade quimérica e ilusória, onde participantes trocam a sua saúde mental pela auto promoção e pelo exibicionismo, tão presentes e protagonistas na cultura do narcisismo. Homens negros, mulheres negras, garotos, garotas, influencers e anônimos, encaminham suas vidas à ostentada escravidão, lacrados em um ambiente vigiado, escancarado e hábil em conceder-lhes crueldades e degradações contínuas e assustadoramente naturais.
Talvez com o impiedoso pretexto de um “experimento”, o programa de TV submete-nos à exposição humana, como numa releitura hedionda de um passado colonial, onde seres pertenciam a outros seres, que lhes impunham castigos, reprimendas, agressões e perseguições. Por entre dinâmicas e competições patrocinadas, ornadas com desodorantes gigantes, hambúrgueres, lasanhas, financeiras e propagandas invasivas, o programa expõe seus participantes, e os direciona ao embate, ao conflito, para que suas diferenças substanciais e suas distintas capacidades frente à pressão psicológica, forneçam-nos o conteúdo voyeur televisivo. Do sofá de casa, enxergamos homens amarrados à troncos maciços, carregando vigas, minerando debaixo do sol, e o pior, enfrentando transparentemente os demônios incansáveis de suas próprias cabeças. Em horário nobre, ao fim da novela.
Fomos longe demais. Depois de assistirmos ao racismo e à degradação, estivemos de frente a um episódio duplo de importunação sexual. E permanecemos. Íntegros, intactos e pacatos, enquanto o crime sucedia em tempo real. Cúmplices, diriam os mais ingênuos. Que nada! A audiência e a exposição fazem-nos criminosos. A direção do programa é perversa, “neoliberalisticamente” nefasta e responsável ao permitir que uma mulher em situação vulnerável seja tocada e abusada, tornando-a também produto de sua maldosa publicidade.
Aceitamos, portanto, assistir de nossas casas a realidade das ruas, das festas e dos almoços de família. O opressor e o oprimido, que neste caso, dessemelhante ao escravizado colonial, é humilhado por necessidade narcísica, de uma maneira tão natural quanto a respiração. Ali no quintal de casa, frente à farta churrasqueira, tomaríamos goles de cerveja gelada enquanto o tio depravado e criminoso enfia publicamente suas mãos na bunda de uma criança que brinca. Eis o fato. Estamos em tamanha decadência que nosso entretenimento é a angústia, o calvário, a ansiedade e a desgraça. Não nos interessa a festa, tampouco os banhos de piscina. E também não reagimos frente ao crime, afora publicações denunciando o fato explícito, como merchandising e publicidade de nossa própria bondade e compaixão.
Não só os importunadores devem responder à justiça. São capangas de um líder facínora. A emissora e cada diretor, são os responsáveis imediatos pelo crime, posto que enquanto as câmeras apaziguavam os desejos devassos e delinquentes do telespectador, o alto comando permitia que o delito progredisse, e no dia seguinte, comercializava empacotada sua dissimulada decisão, através de um sisudo e circunspecto apresentador, que costumava rir à toa enquanto conversava com cavalinhos de pano.
Intolerância religiosa, abuso, ameaça, crises de choro, machismo e ofensas pessoais. Eis o horrendo espetáculo travestido de experimento antropológico, onde os participantes militam causas sociais a cada semana, soterrados por sua própria escravidão, e emudecidos pela ânsia econômica de uma empresa voraz. Tão voraz quanto seus egos e suas pretensões.
No outro dia, em um sofá colorido, a apresentadora levanta questionamentos, como se o show fosse um acidente. Mera casualidade de um habitual cotidiano, e não a esquematização de um divertimento inclemente. De um espetáculo voyeur, onde a vulnerabilidade humana é a matéria prima.
O Big Brother dá dinheiro e dá o que falar. O Big Brother é genial, talvez. Como obra de um ousado e destemido artista, talvez o programa fosse o objeto principal de uma investigação sobre a expressão brutal do século XXI. Forma, técnica e ideia. O Big Brother é tudo, menos inocente. A Globo é grandiosa, mas criminosa. E nós somos sádicos, que já não regozijamos com filmes e novelas violentas. Precisamos de mais. Queremos a baixeza do abuso psicológico, a atrocidade da violação sexual. E nos jantares desconstruídos, encontros acadêmicos e conversas eruditas, proferimos teses humanitárias, engajadas e inclusivas. Somos Fantásticos.
Plim Plim!











.png)
