sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Tailândia





    Fui indivíduo de poucas distâncias e algumas escuras profundezas. A tal da ansiedade é um desassossego-onça, que vigia o passo e amarra o fôlego em nó de marinheiro. E quem padece desse Sertão-no-Peito — esse bicho-invisível que mastiga a tranquilidade — sabe: a gente é capaz de galopar léguas para o lado de dentro, descer em grotões da alma só pra encontrar sentimentos que viviam ali, acocorados nos joelhos, ou entalados na bolota de espinhos que mora no pomo da garganta. Fica a gente, então, entoldado de horizontes, com o passo amarrado no pé da mesa. Num encantamento de raízes, amamentando o medo de que o mundo lá fora desmanche o pouco que a gente conseguiu amealhar por dentro. É a tentação de achar-se no raso, por medo de que o mar dos outros não tenha fundo, ou de que a gente se desmanche no ar antes mesmo de avistar a terra do estranho.

    Meu passaporte era o silêncio da escrita, sem carimbo de alfândega. E de tanto me escavar por dentro, de tanto palmilhar os corredores de meu próprio juízo, decidi que era tempo de me desfronteirar. Pus-me a viajar para o fora, para o longe-distante, onde o mapa perde o nome e a gente ganha o espanto. E foi um longe tão desmedido que precisei me entregar ao bojo de dois pássaros de ferro. Essas naves de demasia, que roem o tempo em voos de nunca-acabar. Atravessei o céu em duas etapas de cansaço e nuvem, deixando para trás o meu sofá de medos, para ir ver onde é que o sol se esconde quando a gente ainda dorme no Sul.





    Não fui desacompanhado, pois que a solidão é asno-de-unha, coisa que me rala o espírito. É lembrança-braba, dessas que alongam as madrugadas, secando a goela e impedindo que a saliva faça o serviço de molhar a vida. Fui com minha amada que, de tão amada, pode ser porto-manso e redemoinho. É a calma que desassombra os escuros e a ereção que me acende o sangue. É amiga de repartir o silêncio e tesão de me incendiar a pele. Coisa de não se carecer de explicar, porque o amor, sustento e vertigem, é um mistério-mansidão que faz a gente ter coragem de ser dois num mundo de estranhezas.

    Aterramos. E o que nos recebeu não foi um país, foi um estado de espírito. A Tailândia — ou esse antigo e sábio Reino de Sião — abriu-se como flor de lótus, molhando-nos com um orvalho de séculos, guardado calmamente no meio das pétalas. Ali, no coração da Indochina, o mundo deixa de ser linha reta para virar um bordado de águas e reinos. O ar, que lá é grosso de calor e de rezas, não nos pediu licença: abraçou-nos com uma umidade-mãe, um bafo de terra antiga que conta histórias sem precisar de letra. Pisamos num chão que não era de pedra, era de vida acumulada, onde o tempo não corre — ele repousa, suarento e calmo, sob a sombra dos templos.

    A Tailândia não nos recebeu com perguntas, mas com o sorriso-de-ouro de quem já viu impérios caírem e o sol renascer, insistente, no mesmo lugar. Eu, medroso de não aguentar o mundo, vi que o mundo ali era uma casa cheirosa de portas abertas, nos convidando para o banho de sentidos que eu tanto havia evitado. Fomos batizados por um sussurro de seda que vencia o rugido de ferro. Bangkok, onde o trânsito é um rio de metal em fúria, deu-nos o sorriso-primeiro. Um olhar de povo-santo que, de tão límpido, fez o barulho emudecer e as avenidas se abrirem em um vácuo de paz e temperos.

    Riso ofertado sem cobrança, um dar-se sem esconder. E havia naqueles rostos algo de uma infância-antiga, uma ingenuidade tão límpida que não se confundia jamais com tolice. Vi que o riso daquele povo não era coisa de paspalho ou de tolo-crente, dessas que a gente vê em quem é bobo por falta de mundo. Não era a ingenuidade alvar de quem se deixa enganar por não saber o preço das coisas, pela malícia da malandragem. Pelo contrário: era uma clareza que assusta, uma pureza que já teve o couro curtido pelas durezas, mas manteve a alma em estado de cetim. A bobice é um vazio. A coisa deles era um transbordamento.

    Em cada desvão de viela, em cada dobra de beco, o mundo se oferecia em mãos de mulheres-antigas, de senhoras amáveis. Elas, rainhas de seus fogaréus que assustavam panelas, ofertavam um sustento de sabores nunca dantes provados — comida que era um estalo de alegria na boca, vinda do pouco e valendo o todo. O que ali se vendia não era só o trato do corpo; era o derramamento do gesto. O sorriso daquelas senhoras não lhes morava apenas nos lábios, mas escorria pelas pontas dos dedos e se desenhava no ar, numa delicadeza de quem não está apenas entregando um prato, mas repartindo a própria paz. Era a prova de que a beleza não carece de palácio para fazer morada.





    O que era salgado punha-se a sarandear com o doce, numa dança de não se querer parar. E o azedo, que no mundo é faca, ali amaciava na língua, amansado pela maciez-untuosa da gordura, como se cada sabor tivesse feito a sua própria meditação. Era um comer de deuses, na combinação das perfeitas completudes, onde o oposto não briga: se abraça. E por entre galangais, currys, chalotas e o branco dos cocos, enrolei meu espírito num gosto que é puro desabafo. Fechei os olhos quase todas as vezes. Coisa de misticismo. Montanha sagrada que sabe o jeito exato de desenredar os nossos desgostos e fazer a vida fluir de novo, sem tropeço de amargura.





    O povo de lá tem uma demora-mansa para o encontro. A gente, em atropelo de ocidente, solta um 'oi' seco: palavra de um gume só, e acha que já cumpriu o destino. Eles não. Ofertam o “Sawasdee Kráp”, com aquele 'á' final que se estica no ar, tempos e tempos, ganhando corpo de melodia, desenhando um abraço de som. É um cumprimento que não tem pressa de acabar. Uma vocalização-carinho, acolhedora e alegre, que parece dizer que o tempo de Deus é o tempo da gente se reconhecer. Naquela toada amável, o 'oi' da Tailândia vira uma ponte, e a gente atravessa feliz para o lado de lá sem nem sentir.




    O Rio Chao Phraya banha a miséria e a glória com a mesma indiferença sagrada. Navegando por seus canais, a gente esbarra no tutano do existir, no osso da cidade: ali, onde o luxo dos templos de ouro faz sombra em palafitas de madeira-cansada, mora a pobreza que o mundo esqueceu de consertar. Casas que teimam em ficar de pé, quase debruçadas no rio, como se o equilíbrio fosse apenas um milagre de cada manhã, um descuido do abismo. Mas é aí, no sustento desse quase-nada, que a gente leva o maior susto de beleza. Daquelas janelas desvalidas, surge o “Sawasdee Kráp” mais longo, mais profundo e mais musical. O aceno dedicado, ameno e feliz, abana aos barcos que passam boquiabertos. Um sorriso que não vem do que se tem, mas do que se é. Uma gente que, no meio da precariedade e da falta de telha, celebra com delicadeza a abundância do encontro. O encontro, ah o encontro. Talvez seja palavra insuperável ao se falar da Tailândia.






    Encontramos alegria e riso-farto, uma delicadeza de seda. Encontramos sabores que eram delírios, e delírios que tinham gosto de terra. Ali, o sagrado e o profano não se dão as costas; pelo contrário, se enroscam no mesmo verso, compondo um poema de existências que o juízo da gente, no seu costume de separar as águas, não alcança. É um mistério que embaraça o pensar do homem limitado. Esse que vive querendo botar o mundo em gavetas. Bangkok desmancha as cercas que a nossa lógica teimou em levantar. A gente se perde da razão para, enfim, se achar no que é real.




    Bangkok, de tanto ser fervura, foi repouso: uma vastidão que faz tanto barulho por fora, que a gente só consegue ouvir, enfim, o silêncio que Deus esqueceu dentro da gente. E eu acabei por me esquecer de quem eu era. Desprendi-me da ânsia que me servia de sombra e me deixei ficar, baldio de mim, morando apenas no sorriso do povo. Fui ser a gentileza-viva nas mãos das crianças e a elegância suave que habita o corpo dos velhos e dos moleques. Ali, eu já não era o homem que levava medos na mala; eu era apenas um rastro de paz, um sujeito desarmado que, ao perder a própria importância, descobriu a imensidão de estar, enfim, em casa em qualquer lugar.






    Ao voltar, no momento em que os meus pés reconheceram o chão-costume de minha própria moradia, o que era represa em mim desandou em rio. Chorei um choro de nascente, de garoto. Desmanchou-se a alma pra caber de novo no peito. Porque acho que o peito tinha ficado grande demais. Chorei por ter deixado o Sião lá fora, mas principalmente por ter descoberto que ele tinha se mudado com as malas para dentro de mim. No fim do dia tive certeza: meu choro era um “Sawasdee Kráp”. O mais bonito que havia dito. Foi um 'oi' definitivo para mim mesmo. Um cumprimento de quem se reconhece no escuro, e uma saudação para esse homem talvez novo, desarmado e manso, que a Tailândia, em sua sabedoria de seda, sabor e rio, resolveu mandar de volta para cá.

quinta-feira, dezembro 18, 2025

ESPERMOGRAMA

Foi-me solicitado pela doutora um exame que avaliasse a destreza e a quantidade do sêmen. Chamam-lhe espermograma, no vocabulário clínico — palavra usada com naturalidade por quem a pronuncia de jaleco. Depois das marcações e das informações, fui oficialmente convocado a cinco dias de abstinência sexual. Decerto o laboratório chama isso de preparo. Eu chamaria de pausa administrável. Nada de martírio, posto que, frente às distrações modernas — telas luminosas, prazos e cansaços —, os cinco dias de castidade soaram quase como rotina.

No dia do exame, pus minha corriqueira roupa discreta e cômoda, propícia à ocasião masturbatória, e fui ao centro, já ciente dos possíveis embaraços. Praça Dom Feliciano, gente por todo lado, paro numa daquelas garagens de andares múltiplos. Não havia comido nada e pensei que, talvez, o jejum fosse desaconselhável à punheta. Padaria Roquete. Opa, é isso mesmo? Foi quase. Tá tudo estranho. Tudo me lembra putaria. Serve essa.
– Me dá um pastel desse?
– Quer que esquente?

– Não precisa. Só o pastel mesmo já resolve.

A gringa me entregou o troço envolto num papel branco, engordurado. Na primeira mordida, a coisa era boa. Carne molhadinha e metade de um ovo. Será que ovo ajuda no tesão? Eu sinto que vou precisar. Comi só metade, como se a bronha me fosse exigir algum esforço físico. Eu não queria bater punheta de barriga cheia. Não deve fazer bem.

No prédio do laboratório entro com o lanche na mão. O porteiro me olha com cara de quem sabia das minhas intenções. E logo na recepção, duas senhoras. Por entre exames de sangue, ressonâncias, ecografias e endoscopias, jamais eu tinha sido atendido por duas senhoras tão velhas. Não que encontrasse a Julia Roberts nas recepções por aí, mas puta que me pariu! Tinha que ser logo hoje?

– É o senhor que tem uma coleta agora a uma?

Ela me perguntou como se ninguém mais batesse punheta ali. E fosse coisa especial. Será que ao menos prepararam algo? O meu nível de tesão naquele momento era abaixo de zero, coisa de madrugada no Polo Sul, com vento contra e sem casaco, indo buscar uma Skol que esquecera fora do iglu.

– É só esperar que ela te chama na hora marcada.

Constrangido, sentei sozinho nas cadeiras carrancudas do local. Pensei em comer o resto do pastel. Desisti. Vou é pegar um copo d'água num daqueles filtros em que a gente escolhe “natural ou gelada”. Ela me chama na hora marcada? Ela quem, meu deus? Talvez tenha uma equipe especializada lá pra dentro. Gente acostumada com masturbação alheia.

E chegou a hora. Equipe especializada meu ovo! Quem me chamou foi a senhora da recepção, com cara de quem chama um futuro punheteiro humilhado.

– É aqui, senhor. Vou pedir pro senhor coletar e deixar em cima dessa mesinha.

Sala inóspita, antipática, cheia de luvas de látex e seringas. Uma janela disfarçada que oferecia a paisagem lá da rua. Tomara que tenha aquelas películas, e que ninguém esteja assistindo a essa cena. Pensei em perguntar, mas a velha já tinha vazado. Quem quer ficar tirando dúvidas de punheteiro?

Não havia filme, revista, televisão, nada. Em minha cabeça eu imaginava que esses caras, ao menos, te ofereciam algum apoio logístico. Um folder, uma orientação motivacional, qualquer coisa que dissesse boa sorte. Não havia pornô, nem putaria, nem sequer um cartaz de mulher pelada como aqueles de borracharia ou presídio. O laboratório confiava inteiramente na imaginação — que, naquele momento, também se recusava a colaborar. Nenhuma nudez, nada. Ai que saudade da Emmanuelle ou das madrugadas na Band.

Apelei ao telefone. O vexame só aumentaria. Tentei conectar no wi-fi, já com o pinto na mão. Senha incorreta. Vamos no 5G. Será que paguei a Vivo? O que eu pesquiso nessa merda de Google? Imagens e vídeos que me façam gozar rápido, num potinho de tampa vermelha? Poupo-lhes dos detalhes abjetos. Termino o serviço, meio suado e preocupado com o pacote de dados do telefone, que deve ter ido pra banha!

Saí rápido da salinha, cruzei o pálido corredor e passei pela recepção.

– É isso? – perguntei atrapalhado.

– É isso. Muito obrigado, senhor.

Puta merda, ela me agradeceu. Foi a primeira vez que alguém ficou grato com minha punheta. E que punheta melancólica, triste, vulnerável! Acabrunhado em uma sala de laboratório, com velhas uniformizadas do lado de fora, sem pornô, sem tesão, sem motivação. Eu preferia uma colonoscopia, coisa simples, desacordado! Alheio pela anestesia a tudo que se passava pelo cu ou pelos intestinos. Será que agora eu podia comer o resto do pastel? Ou era melhor dar um tempo?

Passei pelo porteiro na saída, e juro que escutei ele me perguntando:

– Conseguiu?

Mas eu devia estar ouvindo coisas! E caminhei pelo centro com cara de quem havia batido uma bronha a menos de um minuto. Será que punheta deixa cheiro na gente? Tá todo mundo me olhando! Entro tímido no elevador da garagem, onde havia deixado o automóvel. Um casal segura a porta e vem comigo. E eu, há pouco com o pau na mão, agora perguntava o andar que eles iriam descer. A gente devia ter um tempo sem convívio social depois de certas humilhações. Eles sacaram que eu tinha me masturbado. Certeza.

Já no carro, protegido de olhares e desconfianças, cruzei lojas, óticas, lancherias e sebos. Fiz a volta no agitado e concorrido Centro, passando outra vez em frente ao prédio do laboratório. E “a lá”!! Olha o motoboy saindo com meu esperma numa maletinha! Coitado! Tá mais fodido que eu. Agora tem que levar essa porra até um outro lugar, debaixo desse sol.

Segui dirigindo com a sensação estranha de ter participado de algo íntimo demais para um dia comum. Eu voltava pra casa com a dignidade levemente desalinhada e a certeza de que a ciência avança graças a pessoas dispostas a passar por pequenas humilhações. Algumas anônimas. Outras, absolutamente memoráveis. Algumas coisas deveriam vir com aviso prévio, período de quarentena e direito absoluto ao anonimato. O espermograma não. Ele apenas acontece. E te devolve à rua como se nada tivesse ocorrido, com cara de punheteiro.

quinta-feira, novembro 27, 2025

A Democracia do Figurino




Há tempos desconfio que as posições políticas das pessoas não brotam, de fato, das tais convicções, mas de um modo secreto de pentear o mundo por fora. Antes de qualquer ideia nasce o feitio: um gesto calculado sem pensar, um corte de cabelo que pretende dizer mais do que a boca, o hábito de ajeitar os óculos ao nariz como quem carimba, para si, a própria licença de existir. É ali, nesse miudinho, que a política encosta. E não no espesso livro, mas na silenciosa vaidade que cada um cultiva como marca registrada do espírito.

Não estou sozinho, obviamente. Carrego comigo a insistente e talentosa sombra — já tão citada, debatida e esgarçada nos corredores dos cursos de Pedagogia. Pierre Bourdieu, o francês que enxergava a sociedade como um grande baile de gestos e maneirismos, traz a ossatura do que me vem à mente e desmonta a ilusão das escolhas puras: gostos, modos, leituras, trajes e trejeitos são os clarões de convicção que fundam as brasas políticas do indivíduo. Para ele, política é antes de tudo feição, desdobramento natural do habitus, esse corpo social que nos veste por dentro, moldando nossas quedas e simpatias como quem talha o gesto de um rosto ou o timbre de um sotaque.

Em tempos de discussões reduzidas a gritos de tela, sabedorias instantâneas embaladas em vídeos de quinze segundos e uma polarização que engole até o silêncio, vale recordar o óbvio esquecido: o voto, as certezas e as bandeiras que agitamos são roupas de alma — não se escolhem apenas pela razão, mas porque repousam bem sobre o corpo social que nos sustenta. Antes de qualquer argumento, vem o tecido: o corte que veste melhor a nossa história, a cor que casa com o nosso pertencimento, o caimento que confirma quem somos perante os olhos alheios.

A política, vista de perto, é menos uma construção de ideias e mais um artesanato de imagens. Uma costura íntima entre aquilo que desejamos parecer e o bando que desejamos habitar. Há quem pense que convicção nasce do intelecto; eu, não. Tenho para mim que ela nasce da pele — daquela parte da pele que se estende até o espelho, pedindo aprovação silenciosa.

E se somos tão estéticos assim, tão dados a moldar a alma conforme o figurino, era inevitável que buscássemos também os heróis. Não os clássicos, a cavalo, resolvendo dilemas morais, mas os heróis de postura, de frase cortante, de queixo tenso. Num desses acasos surgiu o Capitão Nascimento: triunfo cinematográfico, sem dúvida — serviço brilhante à arte, ao enquadramento e ao roteiro amarrado. Mas, ao mesmo tempo, um desserviço à estética política do povo, posto que nos fez admirar o torturador como se admira o atleta; cultuar o assassino como se cultua o paladino; repetir suas frases acreditando que ali havia coragem, quando havia apenas o teatro da brutalidade. Capitão Nascimento, mais do que personagem, virou acessório identitário: uma estética de guerra vendida como convicção. Um protótipo pronto para quem precisava de alguém que decidisse o mundo a golpes secos.

E se a direita e o conservadorismo elegem seus Capitães Nascimentos, a esquerda também fabrica seus próprios “santos estéticos”, trocando apenas o uniforme. Modelos de virtude lapidados no imaginário, cabendo direitinho na moldura do progressismo desejado. Não importa se o santo é humano, contraditório, repleto de frestas — a esquerda, como qualquer tribo, precisa de rostos para pendurar suas esperanças; precisa de figuras que funcionem como bússola e medalhão.

Com gerações de “ecobaggers” e veganos que brigam com a mãe por causa de um salame italiano, o povo do progresso prefere as “figuras humanas”: sensibilidades mansas, camisetas desbotadas, um livro sempre à mostra e um sofrimento histórico guardado no bolso interno da jaqueta. Ídolos que parecem brotar do cruzamento entre oficina de artes e assembleia estudantil, carregando o ar de quem entende o mundo porque já chorou por ele. A estética progressista adora personagens pacíficos, iluminados, levemente boêmios — seres de aura macia, com a indignação justa dos puros e o charme intelectual de quem cita poesia até para pedir troco. É gente que desfila a paz como quem desfila ideologia: um jeito de dizer “sou melhor do que a briga”, enquanto se envolve apenas nas brigas certas para manter a imagem polida.

É uma pena. A política, essa criatura que deveria nascer do encontro entre a justiça e a coragem, torna-se cada vez mais estampa, vitrine, escrava do pertencimento. Dobra-se mais ao costume social do que ao impulso de mudar o que precisa ser mudado. Forma-se menos na fábrica e na rua que arde, e mais no espelho que aprova. Somos reféns dessa liturgia de aparências; escolhemos sotaques como quem escolhe máscara, quase sempre sem perceber.
E nada de novo vai acontecer. Os de sempre — herdeiros do conforto, donos das chaves — seguirão onde estão. O resto, perdido entre símbolos e slogans, permanecerá no térreo acreditando que postura é pensamento e que justiça é acessório do discurso. Não há milagre possível. Afora os abonados e a velha elite — esses que sobem por qualquer escada —, quando o caso for a dignidade e a evolução real do povo, não adianta posar convicção na rede social: enquanto a política for tratada como estética de pertencimento, e não como filosofia, estudo e coragem de transformação, Capitão Nascimento nos dirá, com a voz eufórica de quem porta um fuzil: “não vai subir ninguém.”


                                                                                                                    Jonas Lewis

domingo, novembro 16, 2025

O livro MENOS vendido da Feira do Livro

     


Não vendi um único exemplar na Feira do Livro. Nenhum leitor, desses atentos, apaixonados pelas letras, curiosos de parágrafos alheios — interrompeu o passo diante da banca e pensou, com súbita convicção: “é este”. Ninguém estendeu a mão, ninguém levou o livro para casa, ninguém o abriu como quem encontra um pequeno incêndio para devorar antes de dormir. 

E, no entanto, foi justamente o silêncio desse esquecimento que me acendeu uma antiga pergunta: por que escrevo? Por que voltaria eu à mesa, ao caderno, ao brilho teimoso da chapa em branco? O que me faria insistir, depois de ver meu livro atravessar a feira como atravessa um fantasma — presente, mas não tocado?


Se para Kafka, o solitário artífice do desamparo, escrever era o único modo de existir em silêncio, e de estar sozinho sem afligir-se da solidão, para o velho Saramago o ato da escrita já nasce voltado para fora — para alguém que há de completar a travessia: “o que escrevo sempre é pergunta; a resposta cabe ao leitor.”


A mim, fazer literatura é como quase tudo que há no mundo: arroz e feijão. Chuva e seca, o sal da lágrima e a doçura do riso, sombra imensa e luz miúda. Apolíneo e Dionisíaco, esse par de opostos tão poderosos na filosofia ocidental. O ato de sangrar-se, como em remédio, esvaziando nas orações um tanto dos traumas, das esperanças e das histórias. A literatura nasce antes — naquele lugar secreto em que uma frase pede outra, em que uma imagem insiste, em que a mão, quase sem pedir licença, volta a procurar a palavra. É isso, e é outro. Como talvez tenha reputado, fortuitamente, Saramago. 


Escrever é, também, um reincidente exercício narcísico: o sujeito se dobra sobre si mesmo, alisa a frase como quem ajeita o próprio rosto na água, escolhe e recolhe palavras, troca as que falham, aprimora as que brilham — tudo para ver surgir, no texto, um eu que talvez nem exista fora dele. É vaidade tímida, quase envergonhada: a gente talha o texto para si, mas deixa, num sem querer deliberado, umas frestas abertas — uma porta delicada de claridade — por onde o outro possa entrar. Porque o escritor, no fundo, anseia essa presença quieta que vira a página no seu compasso, respira junto com a narrativa e, num gesto que ninguém vê, completa o sentido que jamais conseguiria sozinho.

Escrever é bicho de duas cabeças. Como tudo que é bicho, aliás. De primeiro, esse derramar para dentro, um exercício de cura e de espelho: a mão cavoucando o próprio peito, ajeitando palavras como quem organiza um quarto em desordem. É curativo, válvula, respiração. E depois, a intenção menos confessável: a premência de ser lido, quase compreendido, e amado até. Porque o escritor carrega em si um tipo terno de mau-caratismo, como o que revela um sedutor motivado, diante do ser passível de ser provocado, embevecido e capturado. Afinal, seduzir alguém é um ato corrupto e cínico que a muitos desperta imenso regozijo. O sedutor é um crápula, um perigoso e encantador trapaceiro.

E talvez seja isso que reste, no fim das contas: essa perversa delicadeza de quem escreve tentando fisgar um coração alheio, mesmo quando falha miseravelmente na empreitada. Ou a vontade de livrar o que já não cabe no peito, a urgência de sangrar o verbo que lateja escondido. Porque não vendi um único exemplar na Feira do Livro — e, ainda assim, voltei para casa com a vontade antiga intacta, teimando em mim como febre boa. 


Escrevo porque as palavras me empurram, me atravessam e me pedem passagem, como o T1 acelerando na Ipiranga. Escrevo para fazer nascer de mim o que, numa conversa, morreria antes da primeira sílaba. Escrevo porque certas coisas não sabem sair pela boca: precisam da lenta gestação das frases, da respiração profunda do silêncio e do abrigo de uma página que não se assusta com o excesso. Escrevo para sobreviver às marés que me submergem. Escrevo porque há mundos que só existem quando eu os digo. E, se eu não os disser, eles me devoram. Escrevo para dar destino ao que me sobra, para dar casa ao que me falta. Escrevo porque, no fundo, a palavra é o único modo que tenho de transformar o que me dói em claridade, e o que me ilumina em permanência. E talvez seja isso — só isso e tudo isso — que me faça tentar de novo: outro livro, outra feira, outro fracasso; essa teimosia de continuar parindo sentidos onde a vida, sozinha, não daria nenhum.



                                 Jonas Lewis


domingo, novembro 02, 2025

Mata mais que bala de "revórver".



A garota progressista, esquerda de carteirinha, não abre mão de seu baseado com incenso no fim da tarde. Os pets na volta, a banda dos Filhos do Gil tocando na Alexa e fogo na bomba! O investidor engomado da XP afunda o nariz em vários gramas de cocaína enquanto acompanha o sobe e desce do mercado. Na festa de despedida do menino rico, que vai passar um ano lavando pratos na Austrália, a turma se diverte ouvindo funk com balinhas e adesivos alucinógenos. Uns passam mal. Outros não. E os pais buscam o filho babando no hospital, depois de misturar essas paradinhas com Red Bull e vodca.

Ninguém quer o fim do tráfico de drogas. Ninguém se importa com essa porra. Todo mundo quer livre acesso aos sonhos em pó, às anestesias da alma e aos aluguéis momentâneos do paraíso. O povo só não quer traficante preto, sujo e violento na quadra do beach tênis, ou caminhando de tornozeleira pela Praça de Alimentação do Shopping. Assim como tiozinho não quer o fim da prostituição, mas não tolera puta desfilando pelo pátio do condomínio onde mora com sua família cristã e um Shih-Tzu com nome de gente. Ninguém quer o fim da sonegação e da evasão fiscal, que, com a malandragem de planilha, traveste-se de esperteza, assaltando invisivelmente e cheirando a perfume importado.

Mas o que mais me impressiona é a audácia da elite e de sua vassala classe média, que horroriza-se e condena os traficantes e os garotos pretos que empunham fuzis. Faz-se, ao mesmo tempo, alheia, vendada e indiferente ao fato de que o esgoto corre a céu aberto nas favelas e periferias, e que os ratos são assíduos moradores desses barracos onde habitam tais garotos. Cegos por escolha, elite e classe média preferem a miopia incapacitante, as pupilas dormidas e anestesiadas, e dormem sobre a verdade de que nenhum desses garotos foi à escola, bebeu boa água e alimentou-se decentemente. São corpos privados de mundo, estatísticas sem esperança, sem médico e sem espaços honestos de lazer e infância.

Não há furto, assassinato ou roubo na sinaleira capaz de rivalizar com o crime lícito, cometido, há séculos, pelo Estado brasileiro. A negação da humanidade aos seus cidadãos, de forma contínua, silenciosa ou barulhenta, e o esquecimento programado de uma cultura negra e fundadora, são delinquências indesculpáveis, hediondas e inclementes. Marginalizar a sobra da “Mão da Limpeza” e tiranizar as mãos nigerianas, Iorubás, Bantas, Jejes e Nagôs que, há pouco, construíam as casas, levantavam igrejas e sustentavam o país com o peso do próprio corpo — é um delito sangrento, bárbaro e covarde.

Naturalizamos a negligência, normalizamos a omissão e moldamos a desigualdade como se fosse destino. De forma vil e infame, limitamos o herdeiro preto às margens intangíveis da cidade e condenamos suas famílias a viverem sem férias, sem escola, sem bons automóveis, sem boa leitura, sem intercâmbios, brinquedos novos e, principalmente, sem o pertencimento ao mundo, e sem o direito de imaginar o futuro, coabitando a infância como sobrevivência, e jamais como descoberta. Empurramos seus corpos para a distância e, com eles, seus sonhos, para que não se aproximem demais do nosso privilégio.

Deveríamos cessar o teatro do espanto. Parar de aplaudir o covarde combate à criminalidade minúscula. E, como brasileiros, abandonar a atenção ao roubo de iPhones e à boca de fumo. Voltar os fuzis da moralidade para o crime que se assina em gabinete, que se planeja em relatório e que se reconduz com voto. Atentar ao delito silencioso, costumeiro e ideológico, que se disfarça de burocracia, de orçamento, de política pública. O crime que não estampa manchete, mas decide quem vai nascer com futuro e quem vai rebentar sem escolha ou condenado a servir — como sombra, como corpo útil, como mão que sustenta o conforto dos brancos e abonados, fadados a carregar o peso dos que nasceram leves, de casas cercadas, poupados da história e desinfetados da miséria. É preciso enxergar a desigualdade como a verdadeira arma, e o apagamento da negritude como estratégia de dominação e desaparecimento. Porque o silêncio planejado, o esquecimento das raízes e a negação do valor das infâncias que crescem sem espelho e sem festa de aniversário, são metralhadoras implacáveis, perversas e lancinantes.

Não há Brasil sem a austera retratação com as crianças pretas, com o povo que, mesmo dono dessas terras, ainda pede licença pra existir. Não há nação sem que se devolva o direito ao riso solto, à arte, à inteligência. E é preciso que essas vozes — antes sussurros — passem a soar mais altas que os hinos, que as marchas e os discursos que tentam manter cada um no seu lugar, apagando a negritude, mascarando a desigualdade e amamentando a fantasia de um país melhor sem os garotos do tráfico. Discursos que disfarçam o medo de igualdade, que insistem em manter o pobre na margem, o preto na sombra e o menino do morro ensanguentado no colo da mãe.

quarta-feira, abril 02, 2025

Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo - Uma Reflexão Festiva

 Há quem trate o mundo como recinto ordinário, previsível. Há quem o diga como compasso exato, artificiosa coreografia aprendida, domesticada e repetida. Vestir-se com os tecidos da norma, caminhar nos retilíneos traços dos dias comuns e falar o que se espera, sorrindo no tempo certo, e calando quando o silêncio impõe sua regra austera. Boca obediente, comportada. Olhos decentes, empenhados, corpo arrumado, talhado em dobra e obediência — que aprendeu, cedo demais, a não incomodar.

Mas há aqueles — felizes, dizia Erasmo de Roterdã — que não se curvam a essa régua invisível. Aqueles em quem a lógica do mundo hesita, treme e se embaralha. Foucault diria: são os que habitam as margens do discurso, os que dançam fora do compasso. Não por desvio, mas por outra geometria — por outras formas de ver, de sentir, de ser.

Hoje é dois de abril. Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Talvez o dia perfeito para não caber. Para não explicar, nem reduzir. Para não alinhar a diferença à cadência das definições. Talvez seja o dia de celebrar o drible. O tropeço que vira dança. A palavra que não chega, mas ressoa. O gesto que escapa — e, por isso, ilumina.

Esqueçamos as datas, calendários e cerimônias, posto que são invenções do mundo comum — essa fábrica de moldes que forja réguas para medir o que escapa, cria nomes para conter o indizível e sorrisos para fingir a paz. Um mundo que inventa calendário para domesticar o tempo, etiquetas para disfarçar o estranhamento e a rotina para apagar o espanto. É um mundo que teme o desvio, que cochicha diante do silêncio, que apressa o passo de quem ousa parar — de quem se recusa a rimar a vida com pressa. É o mundo dos manuais — onde tudo tem de ter uso, função, resposta, missão. Onde os corpos devem andar em fila, e as almas não podem tropeçar em sonho.

Hoje e, ao menos hoje, deixemos o mundo comum cochilando em sua lógica exata — e celebremos a festa sem roteiro. A fantasia que se repete com brilho refeito, dia após dia, na rotina mágica do incomum. Hoje, cantemos o Autismo e suas encanterias. Suas alquimias silenciosas e suas delicadezas que acendem estrelas no meio do dia. Falemos do jeito com que tocam o invisível e rasgam a cortina pesada da normalidade. Porque vivem outro compasso — mais profundo, mais sincero, mais inteiro. Mostram que o real não é trilho, é espiral. E que a vida não é linha reta, mas rio que se curva, serpenteia e canta seus próprios desvios.

Celebremos a sorte de quem toca nesse mundo, porque, mesmo de raspão, algo em nós também se desfaz e se refaz: desfaz-se o casco duro da pressa, o hábito de olhar sem ver e a urgência de nomear as coisas. Porque as coisas, no fundo, são só isso: coisas. Mistérios com forma, silêncios em cor, dissonâncias que transformam o acorde comum em jazz — e não mais melodia dócil, mas vertigem sonora, onde cada nota intrusa esbarra em sentimento e ressoa como quem revela segredos extraordinários ao ouvido do tempo.

E o autismo também é isso: é a quebra que faz nascer o encanto, o desvio que pulsa num ritmo verdadeiro. Porque o autismo não anda por onde se espera — ele borda pelas margens, dança nas bordas do mapa, e é ali, fora da rota traçada, que o mundo revela suas verdades mais guardadas. É na vereda, no desencaminho, onde o tempo não é tirano — é respiro. O gesto não é desempenho — é linguagem.

O autismo nos sussurra que o mundo não é plano, nem reto, nem pronto. Que por trás das lisas fachadas da rotina há dobras escondidas, frestas por onde escapa o vento de outro tempo, com cheiro de saudade. O chão, que parecia firme, revela textura secreta, terra molhada. A gente aprende a enxergar com o olho torto, o ouvido oblíquo, e a silenciar o barulho do mundo para ouvir o que não se diz em voz alta. De que segredos riem as conchas quando se perdem da maré?

É no autismo que a vida desaprende o dever e reaprende o deslumbramento. Como quem se perde do mundo e encontra, enfim, o encantamento. Celebremos, portanto, a maravilha de não caber. O afeto que anda em patas leves, se esconde como tatu-bola e ressurge, inteiro, num gesto mínimo. Celebremos o tempo que se alonga, o olhar que demora, o amor que não se explica, mas se deixa entrever — como vaga-lume em noite escura. Festejemos o respeito e a fascinação de escutarmos com a pele, de enxergarmos com a respiração e de aprendermos com aqueles que não marcham no passo certo das multidões, mas dançam, livres, imunes e, principalmente, honestos.

Exaltemos aqueles que seguem trilhas inventadas no musgo, nos caminhos que só os bichos mágicos conhecem. Aqueles que conversam com o mundo em linguagem de vento e pedra, que reinventam a verdade utilizando os fios invisíveis do gesto. Celebremos o Autismo, e reconheçamos, por fim, que o autismo não é ausência — é presença em outra frequência. E quem se afina com ela, ainda que por um instante, descobre que o mundo é mais vasto que o mapa, mais fundo que o costume e mais bonito do que o nome das coisas pode alcançar. Há beleza demais nos cantos onde ninguém costuma olhar.

quarta-feira, março 26, 2025

Nem Todo Grito é Festa


O futebol não é só paixão nacional. Muito além das fronteiras do Trópico das Contradições, conhecido como Brasil, o futebol é um fenômeno sedutor, político e encantador. Um espetáculo coletivo que celebra a estratégia, o corpo humano, a arte e o improvável. Suor, lágrimas, sorrisos, glórias, encantamentos e decepções. O futebol foge às rígidas lógicas da razão e, portanto, vez por outra, insubordina-se às análises acadêmicas, aos diagnósticos políticos e até ao importante espelho social no qual todos nós deveríamos, habitualmente, ser capazes de enxergar nossas próprias faces. 

O que nos move, usualmente nos revela. O que nos empolga, evidencia-nos. É celebração e descoberta, euforia e confissão. Não há o que a disposição da embriaguez não exponha. Quando escorre a alegria pelos poros e a voz junta-se ao coro da arquibancada, deixamos escapar o que, no sóbrio e solitário silêncio, talvez ficasse guardado. Na catarse do gol e na comunhão do grito, emergem grosseiras verdades, e tendências mal resolvidas. O futebol despe-nos como detector de metais. Ignorar os seus aspectos políticos, as suas exclusões, falhas e contradições, é perder a chance de contemplar o Brasil de corpo inteiro. Um país que dança, canta, vibra e se emociona, mas que dissimula e se cala diante do ódio e da violência travestida de paixão.

Nas torcidas cariocas, quando o futebol ainda era mais poesia do que negócio, era comum escutar sambas-enredo na voz majestosa da arquibancada. “Aquarela Brasileira”, nascida em 1964 no Império Serrano, ecoava durante a partida no compasso do surdo e do tamborim. O estádio deixara de ser campo de batalha e virava desfile: um cortejo popular onde o grito de gol se misturava à cadência do samba. “Kizomba , a Festa da Raça”, talvez o mais emblemático samba dos estádios, principalmente entre as torcidas de Vasco e Flamengo, ecoou sua força política e social durante as partidas. Campeão em 1988, o marcante samba da Vila Isabel assentou Zumbi dos Palmares na boca do povo. Pela primeira vez em muito tempo, a memória da resistência negra não era sussurrada nos cantos esquecidos, mas cantada em fulgente coro por milhares de torcedores. 

Odes ao próprio time, brados que estimulavam o grupo de jogadores a honrar as cores que vestiam, reclamações de todo lado e até injúrias momentâneas ao árbitro, que vestido como magistrado, deixava de marcar o inequívoco pênalti a favor. Há poesia em cada gesto da boa torcida. Sempre houve. Levar o santo pro estádio, beijar o escudo antes de cada pontapé, agarrar-se na guia do pescoço, e fechar os olhos para ouvir o hino como se fosse serenata de infância. Tem criança que decora a escalação como cantiga de roda e tem velho que assiste ao jogo como quem reencontra um amor de juventude. Que vê nas cores de seu time, e na possível conquista de um troféu, um dos últimos e valiosos motivos para seguir respirando. 

Onde deixamos o fascínio? Em que poeirenta gaveta esquecemos o futebol? Quando deixamos de lado a paixão pelo time e pelo jogo e passamos a entoar ofensas, a vestir o ódio como manto e a violentar o outro com o pretexto de torcer? Onde foi que perdemos o fio do tamborim, o coro do samba-enredo, o batuque que embalava a esperança? O futebol, que já foi roda de criança, ladainha de arquibancada e procissão de alegria, pouco a pouco, se endureceu. Ganhou uma camada robusta de cimento frio. Aos poucos, deixou de ser do povo. Afastou-se do barro, da laje, do radinho de pilha, e passou a caber somente no bolso dos ricos. Os estádios se tornaram arenas esterilizadas, sem espaço pra farofa, batuque ou chinelo de dedo. O ingresso virou produto de luxo, a torcida virou público-alvo, e o torcedor popular foi empurrado pra fora. Fisicamente e simbolicamente. Elitizando o acesso ao jogo, a festa coletiva se enfraquece. O carnaval vira remanso e o consumo solitário enraiza-se. O canto vira performance e a paixão vira posse. O futebol deixa de ser, então, a vivência comunitária para virar espetáculo exclusivo, e num ambiente onde tudo é mercadoria, até o grito se esvazia. Ou se radicaliza. Onde não há espaço pro brincar, sobra espaço pro atacar. 

Nos últimos dias, o que se ouviu não foram os cantos, mas as rajadas. Palavras duras, carregadas de desprezo, de violência, e de uma virilidade oca e tóxica. Dirigentes, jogadores e presidentes, indelicados e desprovidos de qualquer inspiração política, soltam palavras simbólicas, figuradas e metafóricas, carregadas de violência, e disparadas com a naturalidade de quem esquece — ou finge esquecer — que somos animais simbólicos. E que, por isso, as palavras nos moldam, nos movem, nos convocam e encorajam. Aprende-se a odiar, como se aprende a bater escanteio. Aprende-se a violentar com a mesma facilidade com que se decora um cântico racista de torcida. A violência simbólica é a antessala da violência física. Quem aplaude o discurso violento, do sofá de casa, justifica o gesto atroz. Garrafadas, apedrejamentos, empurrões e palavras pontiagudas, são os cupins do futebol. Cochonilhas e pulgões que sugam a seiva e enfraquecem a planta, matando-a dia após dia. São impertinentes como ferrugem, nocivos como carrapatos e fatais como vírus. 

Onde andam os sambas? As famílias? Onde anda o povo que ninguém vê? Hei de escutar um teimoso e pacífico tamborim soar entre as arquibancadas? Hei de ver uma garota, de chinelo gasto e camisa larga, gritar pelo seu time com o mesmo fervor de quem reza? Eu espero que sim, porque o futebol ainda pulsa, e não deve parar de pulsar, como o pujante surdo na avenida. Ainda há, no Brasil profundo, torcedores que resistem como flores em rachadura de parede. E talvez, se escutarmos com atenção, possamos ouvir novamente o samba. Talvez ele ainda esteja ali, quieto, entre um grito e outro. Esperando que o futebol volte a ser o que sempre deveria ter sido: encontro, invenção e pertencimento. Arte, simplesmente.


                                                                Jonas Lewis da Costa Franco


sábado, março 08, 2025

A Felicidade é Azul , Preto e Branca



O que explica a felicidade? O que esclarece-nos a serventia do prazer, a função do contentamento? Vinte e seis séculos de filosofia e talvez não tenhamos chegado perto da resposta. Não há resoluções no pensamento metafísico, tampouco explicações para tão herméticos questionamentos. A felicidade é coisa emaranhada, equívoca, nebulosa. Atrapalha a lógica, desconcerta as coerências, desnorteia as dialéticas e, assim como tudo que é extraordinário, admiravelmente arremessa-nos contradições e absurdos. Como podemos não saber o que a felicidade é, e ao mesmo tempo, saber exatamente quando fomos felizes? Como é possível não compreendermos a felicidade, mas reconhecermos com precisão os momentos em que a vivemos?

Fui feliz na casa de minha avó. Da janela que cortava a alta sala aconchegante, eu enxergava os refletores do Estádio Olímpico e boa parte de suas arquibancadas. Um pouco mais acima, nas colinas da Medianeira, firmava-se a casa onde minha avó fincou raízes, criou filhos, viu nascer um abacateiro, leu os jornais e bordou sua vida em dias inteiros de afeto e silêncio. De lá eu escutava o incessante burburinho das ruas que rondavam o Monumental, e o estrondo festivo do gol, que soava um segundo antes do rádio contar o fato. Havia a balbúrdia dos ataques, e o silêncio das defesas, assim como a algazarra dos portões que vazavam como alto falante, a batucada persistente da torcida.

Para mim, pequeno e ainda intimidado pelo imenso pátio de minha avó, o estádio era coisa colossal, como um Coliseu recente e vanguardista, rodeado de ambulantes, torcedores, flanelinhas e homens eufóricos. Ir à casa da Teixeira de Carvalho, era ir ao Grêmio. Talvez pela proximidade e talvez pela felicidade. Sopas amarelas, caldas de açúcar e papos de anjo. Enredos, primos e peripécias. Que sabor nectarino tinha a vida perto do tricolor da Azenha.

Talvez o mistério seja esse. Disso já não desconfio. Parece-me que pouco importa o que é felicidade, senão descobrir onde a realidade esconde a sua doçura. Aviões, pirilampos, montanhas ou sapos, há de se aprender que o estampido da máquina de escrever, os refletores, a velha cadeira de balanço e as tardes de Grêmio, são os abraços do tempo, os afagos que aliviam a certeza inclemente de nossa fraqueza.

Há quem não os perceba. Nem os abraços, nem as doçuras. Há quem não enxergue que a luz dos refletores anunciando o início da partida, não era luz. Era lembrança. Há quem desvie o olhar quando rola a pelota, e não encontre serventia nessa dança violenta entre os homens e a esfera. Onze de cada lado, guerreando sem espadas, lanças ou katanas, num verdoso tablado onde a força se curva à delicadeza. Onde a brutalidade permeia os hiatos da lucidez, fazendo arte. O futebol não tem utilidade. É um exercício delicado e sutil sobre a percepção simbólica da vida. E eis a sua proficiência.

O futebol não se joga com as mãos. A superestimada parte final dos membros superiores, providas de carpos, metacarpos e falanges, que há tanto desgastamos em tudo o que se pode imaginar do cotidiano prático, aqui não governa coisa alguma. É como se o futebol dissesse-nos que, no chão, estão as coisas valiosas. Que aos pés devemos atentar veneração, e que ali descobriu a doçura que lhe fazia feliz. Como descobri no Grêmio, em minha avó, e em sua casa. Como descobri no azul, no preto e no branco.

Que faz um menino escolher as cores? Que tipo de dança graciosa e cheia de fúria, fugida dos teatros e encenações, apodera-se da fantasia de um lépido garoto? Era o suor, o silêncio, a dor pungente da derrota, o churrasquinho magoado de uma semifinal perdida, a mágoa enfurecida de um gol anulado. O Grêmio me fazia feliz. A vitória tricolor era, acima de tudo, um ato de beleza. Como no enlevo arrebatador de um quadro de Basquiat, ou na impactante comoção frente às missas de Bach, eu havia aprendido. A felicidade atravessa-nos. É vertigem e não razão. É impulso e não matemática. O Grêmio havia me ensinado a extrapolar, e a perceber felicidade, na desordem inexplicável da paixão. O Grêmio tinha-me para sempre. Como um tolo. Como noite que pertence ao céu, mesmo que não lhe ocupe todo tempo.

Foram copas, ligas, torneios e disputas. Vinham de longe pra afugentar o Grêmio, e o Grêmio dava-lhes reprimendas ferozes, com cabeçadas meticulosas, chutes acurados e ríspidos encontrões. Por vezes castigavam-nos, e magoavam a tarde, fazendo-me subir a lomba, de volta pra casa de minha avó, cabisbaixo e doído. O Grêmio era êxtase e desalento. O Grêmio era grito e remanso. Festa e luto, como a rotina. Ascensão e desmoronamento. O abraço e a solidão.

Quem sabe o Grêmio tenha me ensinado sobre a vida. Talvez no cimento grisalho do Estádio Olímpico, eu tenha percebido que a graça da conquista, é o percurso. E que não importam as amarguras, quando se fantasia a próxima vitória. Não importa a injustiça quando a gente culpa o juíz, o centroavante ou o goleiro adversário. É uma forma sensata de insensatez, que prepara o corpo e a alma para o confronto do ano que vem. Para o troféu que ainda não veio.

O Grêmio é mesmo estranho. Como a felicidade, feito desse desequilíbrio perfeito. Desse salto entre o êxtase e a queda, entre a plenitude e o vazio. Como poesia, como a contradição que pinta a beleza. O Grêmio é uma paixão febril. Toma-nos sem aviso, sem anúncio ou advertência e faz vibrar o peito, como a arquibancada. Faz a gente pular feito bicho, rezar pra santo desconhecido e ver-se como um estúpido, sofrendo em frente ao acaso de uma batalha desportiva. Sofrer em frente ao acaso. Ignorar as certezas da lógica. Amar os apertos, os contratempos e metamorfoses. O Grêmio me ensinou a amar. Não a convicção de sua vitória, mas a firmeza de minha obstinação. A graça de minha doença, e o encanto de saber-se pronto, para a queda e para a glória. O Grêmio me disse, desde muito cedo, que o futebol é mais importante que o mundo.

quarta-feira, maio 08, 2024

Porto Alegre Sitiada

A saudade, às vezes, bate como bordoada. É como um espasmo que enverga-nos a relembrar histórias, e reviver as peripécias. A única dipirona possível pra amenizar a dor. Há mais de um ano meu avô deixou Porto Alegre. De forma definitiva, ferrenha e inabalável. Encontrou a morte e, só assim, conseguiu separar-se definitivamente das esquinas abarrotadas do Centro, do corpo azul dourado do Menino Deus e do velho e imenso Guaíba. 

            A mim nunca houve concreta separação entre Sérgio da Costa Franco (o meu avô), e a cidade. Parecia que as vielas, dutos e avenidas, eram as pujantes veias do velho, que bombeavam sangue enquanto fazia destemidas caminhadas pelo Parque Marinha. Conhecera minha avó na Praia de Ipanema, e costumava gabar-se de ser uma Ipanema gaúcha, porto-alegrense, e não aquela dos cartões postais eternizados por Tom e Vinícius, que fantasia um fúlgido e fascinante Rio de Janeiro. 

            Meu avô era um apaixonado, um estudioso, e em quase mil verbetes, registrou com inaudita perícia a evolução dos bairros, praças e ruas de Porto Alegre, em seu afamado Guia Histórico. Monumentos, instituições, recantos pitorescos e personagens ilustres, ao velho avô, eram como íntimos companheiros do velho restaurante Naval. Dedicou-se a pesquisar e amar a cidade. Viveu cada naco de calçada do Centro Histórico, e pôs em suas crônicas, publicadas diariamente no Correio do Povo, o cotidiano recorrente, habitual e fabuloso de cada episódio Porto-Alegrense.

            Que bom que meu avô não anda por aqui. Escondido, talvez, a lhe perpetuar a fama de durão e empedernido, choraria. Assim como timidamente chorou com os versos de Neruda, não lhe seria cabível enxergar a cidade do jeito que está. Parece-me que essa tragédia lhe seria inaceitável. De certo evocaria seu antigo desejo, de que cidade voltasse a parecer com a Porto Alegre de 1935, que ostentava resquícios de um período colonial e transformava-se aceleradamente sob competentes administrações de Otávio Rocha e Alberto Bins.

            Estamos debaixo d`água, e não há literatura possível. Uma crônica amarga do que há dias, parecia normal, estampa o noticiário e monopoliza a prosa do povo. Botes, barcos, máquinas e escuridão. Aproximamo-nos da morte e da catástrofe de maneira dramática, fazendo com que essa proximidade nos acostume, aos poucos, com a tragédia. Um péssimo costume. Nenhuma foto ensolarada na Orla, nenhuma loja anunciando seus produtos na Rua da Praia. Sem grenais, festivais, mates compartidos, peixes embalados nas peixarias do Mercado.

            A cidade chama-se angústia. Solidão. Aos que perderam os sofás, aparelhos de TV, mesas e fogões, aflição. Aos que perderam algum avô, um novo namorado, uma velha mãe, desespero. O pânico financeiro e a revolta com Deus. Talvez, ao menos, o alento de saber que o povo anda pelas ruas. Povo aguerrido. Alagados, encharcados e corajosos, na busca de um braço perdido, que possa agarrar os remos e vassouras, apaziguando um pouco o medo na segurança de uma canoa improvisada. 

            De que altar choraremos juntos a meu avô, se não podemos sequer acender as velas? Estão em falta, nas frívolas prateleiras vazias do supermercado, que assim como num filme americano, parece ter sido invadido e saqueado violentamente nesse cenário apocalíptico. Quando vamos nos encontrar de novo? Quando havemos de amar o rio, outra vez? O pobre, poluto e adulterado, talvez tente buscar o que lhe roubamos desde sempre. Talvez esteja em revolução, insurgindo contra os manhosos homens públicos, que ignoram a sua magnitude pelos indecoros do capital.

            Meu avô não acreditava em Deus. Jamais lhe foi verossímil. Era um homem dos fatos, documentos, títulos, certidões e atestados. E mesmo que a literatura lhe desse vasta destreza espiritual, dizia-se ateu incorrigível. Mas eu consigo ver o velho, tímido e correto, dedicado e apaixonado, encostar no homem lá de cima, seja ele quem for, e pedir-lhe alguma trégua. Que cesse o sofrimento desse povo, que pare as chuvas e que nos dê sabedoria, destreza e calma para voltar. Que controle as nuvens e os ventos, mas que, acima de tudo, dê-nos delicadeza, coragem e determinação para sorrir de novo.


Jonas Lewis da Costa Franco

sexta-feira, abril 14, 2023

A Nau dos Insensatos: Morte e Massacre nas Escolas.



        Publicado em 1494, o poema Navis Stultifera, de Sebastian Brant, retratava a embarcação que, atolada de inconsequentes, glutões, doidivanos, preguiçosos e avarentos, dirigia-se rigorosamente a uma ilha chamada “Insensatez”. Foucault, na História da Loucura, retoma a imagem da nau, e a alegoriza para descrever o macabro itinerário dos indivíduos indesejados na Idade Média. Dos manicômios, hospitais e leprosários, essas criaturas eram constantemente segregadas do convívio social. Feiticeiras, hereges, vadios e embriagados, vagariam portanto sobre as águas, desaparecidos. A loucura, que para Foucault, não seria unicamente uma ilustração histórica, e sim, substancialmente uma experiência originária e essencial, que a razão, a compreensão e a realidade, ao invés de descobrir, ocultou, omitiu, pensou ter calado e dominado. Mas jamais a destruiu completamente, deixando-a perigosa e enfurecida. 

            Denunciada por Nietzsche, a Sociedade Socrática, amoriscada e fascinada pelo espírito científico e racional, fez-nos espectadores do nascimento da tragédia, que por ora, degustaria a repressão e o sufocamento que apressadamente viria através dos peritos e teóricos da lógica e da racionalização. 

            Se por um lado somos cotidianamente delirantes, imprudentes e imoderados, por outro amargamos aprisionados a condição de reféns da insensatez, da insanidade. O absurdo é arte, e dele nada podemos prever. Não há prenúncio ou conjecturas. Nada foi subtraído ou vandalizado. Não há formação de quadrilha, planos, estelionatos ou golpes. Estamos diante de um evidente e inteligível sintoma de nossa própria liberdade, como fugitivos das amarras morais e lúcidas. A expressão simbólica dos conflitos e traumas individuais, ganha potência bélica com o consentimento da massa. 

            A sociedade das curtidas e views capta impiedosamente os que buscam o reconhecimento. Do ressentimento, da invisibilidade e do tédio, nascem os indômitos e hediondos, que arremessam o próprio corpo, junto da alma, em um compreensível abismo de fúria e disparate. A polícia não os pode deter. O exército não os pode bloquear, tampouco as políticas públicas têm comando suficiente para encostar na consciência e no ímpeto. 
            A banalidade do mal há de sentar à mesa, e depois de alguns anos em que permitimos, como corpo social, o discurso beligerante, zangado e odioso, essa banalidade há de ser nosso alimento. Estamos com o prato lotado, a faca e o queijo na mão. Proselitismo Marxista, guerra cultural e inúmeros pretextos desatinados e levianos, confundem e congregam os devotos, que dispostos a sacrificar seu anonimato, aniquilam. A si, ao outro e à coerência. 

            Não há insensatez trancafiada em uma embarcação. Nem barco capaz de carregar o desvario dos lares. A extravagância foi celebrada, e trará suas instalações, em escolas, creches, cinemas e circos. A exteriorização da crueldade, quando acompanhada de fuzis, pistolas, facas e espadas, nos servirá catástrofes, maiores do que nossos próprios traumas e conflitos psicanalíticos. E mesmo que o jornalismo pratique sua ética dissimulada, evitando a propaganda do assassino, o medo de nossa própria capacidade trancafiará os exércitos de triviais em suas casas. No quarto ao lado, a solidão pode fabricar uma bomba. A solidão sempre fabricou bombas. O abandono a que nem mais prestamos atenção, mobiliza as massas ao absurdo fantástico, e de lá saem estrelas gloriosas. Quem sabe um dia nosso filho vire uma série da Netflix? Resta decidir se preferimos como vítima, ou facínora. Ao menos cairia no mar de fogo, no circulo mais baixo do inferno. 

            Como disse Jack, o personagem serial killer do longa The house that Jack built, escrito e dirigido por Lars Von Trier:

- "Se você sente que não é suficiente para o mundo, então invente mentiras e torne-se uma lenda."

            Simplório seria atribuir o jorro de violência aos quinhões direitistas de uma política militar e truculenta. É nítido que desde o integralismo brasileiro, emaranhamos à energia do país, um entusiasmo extremista, ainda caótico e arrevesado, que com a eleição e a divinização de um estúpido “messias”, ganhou robustez e agigantou a massa de maníacos incoerentes, descontrolados e antidemocráticos. A velha concepção hitleriana de “sociedade em decadência”, resguarda os destruidores e terroristas, como se paladinos, intrépidos e heróis, enfrentassem a coletividade doente. Essa dimensão multifacetada, alia o crescimento da extrema direita à excruciante solidão dos corpos. O indivíduo percebe, então, que sua apetência é o extermínio dos agentes construtores dessa sociedade que o humilha, inclusive politicamente, com a insegurança da democracia.  

            Quem poderá controlar os desejos internos? Quem poderia dizer-lhes que o mundo é quem manda, e não o contrário? O horror é como o tesão, a tara, a sigilosa perversão que pertence somente ao que perverte. Nem a polícia, nem o presidente. Nem o jornal, nem a ONU. Nem a própria moral pode desmanchar a depravação ou frear a mentira que contamos todos os dias aos nossos próprios ouvidos. Leve seus filhos à escola, e reze. Principalmente por seus coleguinhas.

quinta-feira, março 23, 2023

BBB - Se pudesse escolher entre o bem e o mal

 


A conquista da riqueza e do poder. Eis o impulso primordial que nos faz frequentes ocupantes nos cargos de escravocratas e tiranos. Pérsia, Grécia, Roma e sem desvios, rigorosamente no Brasil, onde longínquos de qualquer abolição, ainda perpetuamos a submissão degradante, vexatória e humilhante. No BBB, a importunação sexual e o racismo, são estruturas essenciais para que se compreenda um fenômeno recente, fresco e contemporâneo. 
            

O nome do programa, mais do que diretamente insinua a estrutura de controle futurista e totalitária criada por George Orwell, em “1984”. O “Big Brother” da TV, com o mesmo nome da governança presente na criação literária, forja de maneira perversa uma realidade quimérica e ilusória, onde participantes trocam a sua saúde mental pela auto promoção e pelo exibicionismo, tão presentes e protagonistas na cultura do narcisismo. Homens negros, mulheres negras, garotos, garotas, influencers e anônimos, encaminham suas vidas à ostentada escravidão, lacrados em um ambiente vigiado, escancarado e hábil em conceder-lhes crueldades e degradações contínuas e assustadoramente naturais. 
            

Talvez com o impiedoso pretexto de um “experimento”, o programa de TV submete-nos à exposição humana, como numa releitura hedionda de um passado colonial, onde seres pertenciam a outros seres, que lhes impunham castigos, reprimendas, agressões e perseguições. Por entre dinâmicas e competições patrocinadas, ornadas com desodorantes gigantes, hambúrgueres, lasanhas, financeiras e propagandas invasivas, o programa expõe seus participantes, e os direciona ao embate, ao conflito, para que suas diferenças substanciais e suas distintas capacidades frente à pressão psicológica, forneçam-nos o conteúdo voyeur televisivo. Do sofá de casa, enxergamos homens amarrados à troncos maciços, carregando vigas, minerando debaixo do sol, e o pior, enfrentando transparentemente os demônios incansáveis de suas próprias cabeças. Em horário nobre, ao fim da novela.

            

Fomos longe demais. Depois de assistirmos ao racismo e à degradação, estivemos de frente a um episódio duplo de importunação sexual. E permanecemos. Íntegros, intactos e pacatos, enquanto o crime sucedia em tempo real. Cúmplices, diriam os mais ingênuos. Que nada! A audiência e a exposição fazem-nos criminosos. A direção do programa é perversa, “neoliberalisticamente” nefasta e responsável ao permitir que uma mulher em situação vulnerável seja tocada e abusada, tornando-a também produto de sua maldosa publicidade. 
            

Aceitamos, portanto, assistir de nossas casas a realidade das ruas, das festas e dos almoços de família. O opressor e o oprimido, que neste caso, dessemelhante ao escravizado colonial, é humilhado por necessidade narcísica, de uma maneira tão natural quanto a respiração. Ali no quintal de casa, frente à farta churrasqueira, tomaríamos goles de cerveja gelada enquanto o tio depravado e criminoso enfia publicamente suas mãos na bunda de uma criança que brinca. Eis o fato. Estamos em tamanha decadência que nosso entretenimento é a angústia, o calvário, a ansiedade e a desgraça. Não nos interessa a festa, tampouco os banhos de piscina. E também não reagimos frente ao crime, afora publicações denunciando o fato explícito, como merchandising e publicidade de nossa própria bondade e compaixão. 

Não só os importunadores devem responder à justiça. São capangas de um líder facínora. A emissora e cada diretor, são os responsáveis imediatos pelo crime, posto que enquanto as câmeras apaziguavam os desejos devassos e delinquentes do telespectador, o alto comando permitia que o delito progredisse, e no dia seguinte, comercializava empacotada sua dissimulada decisão, através de um sisudo e circunspecto apresentador, que costumava rir à toa enquanto conversava com cavalinhos de pano. 

 Intolerância religiosa, abuso, ameaça, crises de choro, machismo e ofensas pessoais. Eis o horrendo espetáculo travestido de experimento antropológico, onde os participantes militam causas sociais a cada semana, soterrados por sua própria escravidão, e emudecidos pela ânsia econômica de uma empresa voraz. Tão voraz quanto seus egos e suas pretensões. 
No outro dia, em um sofá colorido, a apresentadora levanta questionamentos, como se o show fosse um acidente. Mera casualidade de um habitual cotidiano, e não a esquematização de um divertimento inclemente. De um espetáculo voyeur, onde a vulnerabilidade humana é a matéria prima. 

O Big Brother dá dinheiro e dá o que falar. O Big Brother é genial, talvez. Como obra de um ousado e destemido artista, talvez o programa fosse o objeto principal de uma investigação sobre a expressão brutal do século XXI. Forma, técnica e ideia. O Big Brother é tudo, menos inocente. A Globo é grandiosa, mas criminosa. E nós somos sádicos, que já não regozijamos com filmes e novelas violentas. Precisamos de mais. Queremos a baixeza do abuso psicológico, a atrocidade da violação sexual. E nos jantares desconstruídos, encontros acadêmicos e conversas eruditas, proferimos teses humanitárias, engajadas e inclusivas. Somos Fantásticos. 

Plim Plim!